sábado, 27 de outubro de 2012

Coletivo Ceicine promove o curso "Reflexões sobre a linguagem documentária"



Com a proposta de discutir os parâmetros estabelecidos ao longo da história do cinema do que seja um filme documental, o coletivo Ceicine realiza o curso “Reflexões sobre a linguagem documentária”.

Questionando os dois regimes construídos ao longo da história do cinema – o documental e o ficcional – o curso pretende sitiar esta fronteira para propor outras formas de produção e de fruição dos filmes que extrapolam os tons realistas, no intuito de discutir a realidade cinematográfica. Em outras palavras, dos conteúdos vamos às formas.

Essa discussão que permeará o curso não pretende defender um específico do documentário – um percurso obrigatório pelo qual ao fim teríamos um “eis aqui o Real”. Nem muito menos aferir o documental como algo impossível – o audiovisual como o campo de toda a farsa. Muito humildemente gostaríamos de nos situar neste entre-dois para perceber como os efeitos (de real, de ficcional) são produzidos.

            Para tanto, os tópicos a seguir serão levantados durante os encontros e pontuarão as reflexões e propostas de construção de um roteiro documentário que esteja dialogando com a realidade próxima dos alunos:

 
  • Realidade e ficção: podemos dizer que um é diferente do outro? Em que medida isso pode ser afirmado? Documentário é realidade e ficção não?

  • Filmes e autores: os clássicos e as novas tendências do documentário.

  • Estética e composição do filme documental: breves comentários sobre fotografia, sonorização e montagem.

  • Produção de um documentário: por onde começar a produzir um documentário? Pesquisa documental. Métodos básicos: livros, jornais, entrevistas prévias.

  • Desenvolvimento de um roteiro documentário. Discussão em grupo sobre possíveis temas e o desenvolvimento dos personagens. Quando um personagem se torna interessante? Quem define essa importância?

  • A ética no cinema documentário: o limite entre o “mostrar” e o “não mostrar”. Contrato com aqueles que filmamos. A representação do outro e o ponto de vista do documentarista.

  • Tratamento político e social nos documentários. Diferenças e semelhanças entre o Documentário e as reportagens jornalísticas.

  • Finalização do curso com a leitura dos argumentos. Comentários sobre o desenvolvimento das abordagens. Breves comentários sobre roteiros de montagem e a possível montagem do documentário tendo como referência os argumentos propostos.
 
 
SERVIÇO:
Inscrições gratuitas e outras informações no email: ceicineclube@gmail.com
Dados necessários para a inscrição: nome, RG, telefone e email
Inscrições até o dia: 02 de novembro de 2012.
Quantidade de vagas: 02 turmas com 25 alunos
Contatos: 9824-4716 e 8413-4491

Quem: Os encontros serão mediados pelo cineasta Adirley Queirós e o pesquisador Francisco Amorim

Onde: Centro Cultural Ceilândia
QNM 13 Área Especial Módulo B (ao lado da estação do Metrô ‘Ceilândia Norte’)

Quando:
· Terças-Feiras, das 19h às 22h, nos dias: 30/10, 06/11, 13/11, 20/11, 27/11, 04/12, 11/12 e 18/12;
e
· Sábados, das 14h às 18h, nos dias: 03/11, 10/11, 17/11, 24/11, 01/12, 08/12 e 15/12.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A Cidade é uma só?

Iniciando os trabalhos em 2012 o Ceicineclube exibirá A Cidade é uma só?

Vencedor do edital "Brasília 50 anos" da TV Brasil, A Cidade é uma só? (2011) é o quarto objeto fílmico na carreira de Adirley Queirós (Rap, o canto da Ceilândia, Fora de campo e Dias de greve).
Será a primeira vez que o filme será exibido em sua cidade natal e, dentro da prospota do Ceicineclube, aproveitaremos para discutir algumas questões latentes na obra como a distinção documentário x ficção, a representação do corpo periférico e o uso do espaço público, entre outras questões.

Adiantando, ilustrando e iluminando as questões a priori, publicamos dois trechos de textos do crítico francês Serge Daney:

A pose (keep smiling)
Alguém foi filmado? Existem muitos casos.
1- A filmagem aconteceu no território da indústria de cinema. Ela é simbolicamente coberta por um tipo de contrato (salário, cachê, participações, colaborações) feito entre a produção e os atores. Em nome desse contrato, o cineasta pode exigir determinada atuação ou performance.
2- A filmagem deu-se no território fluido do documentário de ensaio social ou etnológico ou de pesquisa. Os "atores" são normalmente incapazes, total ou relativamente, de dominar intelectualmente a operação a qual eles emprestam corpo e voz. Entramos então no domínio da moral e do risco: filmar aqueles para os quais não existe nenhuma reversibilidade, nenhuma chance de se tornarem, eles, cineastas, nenhuma possibilidade de se antecipar sobre a imagem que será tomada deles: nenhum domínio sobre a imagem. Loucos, crianças, primitivos, excluídos, filmados sem esperança (para eles) de retorno, filmados "para seu próprio bem", pelo bem da ciência ou para o escândalo: exotismo, filantropia, horror.
3- Existe um terceiro caso: quando uma filmagem é realização de um cineasta ou de uma equipe que decidiu colocar a câmera e seu conhecimento a serviço de. De um povo, de uma causa, de uma luta. Nessas condições, a não-reversebilidade tem outras causa (subdesenvolvimento, falta de material, necessidade de ajuda estrangeira), mas ela não deixará de criar novos problemas.

Serge Daney in A Reencenação (Ivens, Antonioni, a China).

"Continuamos a opor termo por termo a encenação (ficção, reconstituição) ao direto (documentário feito ao vivo). Aos excessos de uma encenação herdada da cinefilia dos gêneros hollywoodianos, continuamos a opor os méritos do direto, do espontâneo, do vivido, do natural - tudo o que se tornou possível pelo progresso da técnica e que culmina com o "cinema-verdade" dos anos 60. Essa oposição é um truque. Falando em termos políticos, mesmo "politistas", é preciso dizer que a burguesia não tem apenas o monopólio das imagens filmadas, ela tem - prioritariamente para qualquer filme - o monopólio da encenação dessa realidade. Uma cidade, uma sala de cinema, uma clínica são já encenação. Existe de antemão um modo de usar o tempo e o espaço que eles circunscrevem, percursos obrigatórios, os limites e as proibições. Em última análise, é esse modo de utilização que é político (no sentido em que reforça um poder). Quando um cineasta filma esse espaço "ao vivo" ou o "naturaliza" em uma ficção, não o deixa livre, no entanto, dessa primeira encenação e, muitas vezes, a condiciona. O contrário de uma encenação, não é o direto selvagem, mas uma outra encenação. O contrário do direto não é uma encenação, mas um outro direto. Diverso porque implica uma nova percepção, uma nova posição (espacial, moral, política) do filmador diante daquilo que filma."

Serge Daney in O Espaço Político (filme Histórias de A)


Serviço
Quando: 12/01/2012 (quinta-feira)
Horário: 19:30
Local: sala de multimeios do Centro Cultural Ceilândia
Endereço: QNN 13 lote B Área Especial - Centro Cultural - Ceilândia (ao lado da estação do metrô Ceilândia Norte)