sábado, 13 de julho de 2013

Dispositivo 1' - A crítica e a escrita


Os comentários a seguir terão como missão orbitar entre dois pólos: ao norte, o imã magnético serão os textos publicados na edição (maio 2013) da revista online Cinética, tendo como pauta e campo de atuação, um debate amplo acerca do dispositivo cinematográfico; e nas latitudes mais ao sul, os ventos (as lembranças) de alguns títulos, em especial os documentários participantes da 45º edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

De partida, três explicações ligeiras foram recolhidas ao longo dos textos da publicação: na origem (Foucault), dispositivo denominava “um conjunto de regras que age sobre os seres viventes”. No cinema (Adrian Martin), “um filme-dispositivo (...) é ao mesmo tempo um conceito (...) e uma máquina. Antes de tudo, é um filme conceitual, (no horizonte da arte conceitual), uma disposição (...) que usualmente anuncia sua estrutura ou sistema de início, na primeira cena, até mesmo em seu título, e então deve seguir o caminho traçado por esta estrutura passo a passo, até um terrível ou auspicioso fim”. Para a crítica (Fábio Andrade), “uma abstração que visava juntar diferentes forças sob um mesmo guarda-chuva teórico. Era um esforço de nomear o que não tinha nome; um conceito, enfim”.

O editorial assinado por Fábio Andrade nos diz que “a produção de pensamento sobre cinema rapidamente absorveu o uso do termo, consolidando-o no vocabulário de forma tão assimilada que, a esta altura, dispensa pautas ou conceituações”.

Porém, isso não nos impede de fazer mais perguntas (mesmo óbvias) às da revista:

1 - O que é dispositivo?

2 - Existe um objeto físico significado pela palavra, já que falam num substantivo concreto?

3 - Onde podemos encontrá-lo? Como ele funciona? Tem moral da história?

Ainda no editorial, Fábio Andrade circunda o termo em busca de definições e (outras) questões (surgem) sobre o que pode ser “dispositivo”. Provocação que vários textos da revista tentarão responder, “decifrar as diversas influências e determinações”; mais um nó no tecido histórico: na tessitura dessa linhagem das especulações tupiniquins, o editorial afirma que ela ocorreu de maneira mais sistemática (embora não programada) na última década. E foi testada, principalmente, nas experiências (produtivas e reflexivas) aplicadas ao documentário, confirmando talvez, tese sobre a ‘realidade’ brasileira ser campo profícuo.

Então, é nesse sentido que a descrição de Fábio Andrade citada acima nos alude: há uma busca por um sentido comum (uma semântica), são forças desconexas reunidas num mesmo recanto, diversos nomes significados/subentendidos sob uma mesma palavra; estas são palavras-mágicas.

De antemão é importante perceber que um ‘dispositivo’ não é para o filme (ou para a equipe de produção), o mesmo que para a crítica. Afora ser condição primeira da existência de qualquer filme (de todo o cinema e de tudo o que pode ser considerado audiovisual, veremos), o dispositivo estabelece à composição da obra um circuito prévio a ser percorrido, facultado cumprir ou não as “regras do jogo” e com margem para os possíveis imprevistos. Essa exposição do dispositivo fílmico, no filme, contém algo de generosidade por parte de quem faz cinema, embora um desconforto ou uma crise possam estar na origem dessa partilha: quebra da ilusão ou crise de filiação.

Já a crítica tem como grande regalia (o seu privilégio de existência) ser escrita; essa escrita é uma resistência, um continuum de linguagem, onde tudo (nos filmes) está destinado a se tornar vocábulo: os títulos e épocas de produção, nomes dos atores e técnicos, personagens e cenários, tecnologias e teorias, cores e sons. Portanto, o dispositivo assume, pela natureza da crítica, outras funcionalidades; enquanto para o filme ele compõe a engrenagem de produção, para a crítica (ou para quem vê), ele (o dispositivo) funciona como ledor (ou descritor) dos filmes. Mas com esse objeto em campo, já não encontramos mais as mesmas antigas expressões.

O que nos levou a perceber que o dispositivo (fílmico e crítico) revela uma economia da palavra. Não apenas por esses estudos terem raízes marxistas, mas principalmente por reivindicarem uma dialética de “profusão x escassez” dos signos; por um lado, múltiplas definições possíveis (escondidas) num mesmo nome, de preferência singular e vulgar e encontrado em qualquer enciclopédia: “corpo” e “espaço”, por exemplo, são palavras muito utilizadas nesse período como a velar (como se diz “velar o morto”) infinitas fisionomias e paisagens; em consequência, é à proliferação de nomes originais e privados a que essa linguística se opõe: o Nome Próprio é o grande perdedor dessa história - o nome das starlets e marcas são restringidos, limitados, contidos, abreviados, barrados como se (outra coisa senão) por um dispositivo. Rouba ao Pai (ao Grande Outro, a Ordem) o direito de batismo: de dar nome às coisas; e briga com a publicidade: contra a progressão de produtos generalizados, diferenciados apenas por logos e embalagens, ao eterno lançamento de objetos parciais substituindo/adiantando-se uns aos outros.

Os dispositivos são exercícios de abalos sísmicos nos signos, significados e significantes. Um contraponto nos estudos linguísticos - conter(po)râneos desde as primeiras sistematizações pós-industriais - às tecnologias da informação e logaritmos numéricos. Termo derivado das pesquisas estruturais da linguagem – da própria linguística aos estudos da antropologia e psicanálise (os mesmos que permitiram falar em efeitos ideológicos produzidos por aparelhos de base, do Estado ao cinema), os dispositivos buscam pelo neutro da linguagem, onde ‘fala’ e ‘escrita’ representariam não mais que a capacidade de manutenção da palavra, num sentido de poder - deter o porte do local e dos instrumentos de enunciação, de onde todos os símbolos e ídolos são manufaturados e lançados. A crítica dispositiva sacoleja essas estruturas.

domingo, 2 de junho de 2013

Agenda junho:

Mostras Tati por Inteiro e Jodorowski no Teatro Paulo Autran -  SESC Taguatinga Norte

Durante o mês de junho, a unidade do SESC Taguatinga Norte promoverá mostras paralelas de dois monstros da história do cinema: o ator e diretor francês Jacques Tati (1907 - 1982) e o multinstrumentista multinacional Alejandro Jodorowski (*7 de fevereiro de 1929 em Iquique, Chile - ).

As duas mostras chegam ao DF após excursionarem pelo país com edições em diversas unidades regionais da rede Fecormécio. Louvável iniciativa de um instituto comercial promovendo a circulação de obras desatreladas do sistema comercial cinematográfico publicitário, que prioriza apenas o lançamento. Uma oportunidade para conhecer a obra desse gigante (1,91m de altura) símbolo do humor francês, da envergadura de um Chaplin ou um Didi Mocó. E (des)cineasta, poeta, autor de quadrinhos e (como se auto-denomina) psicomago, Alejandro Jodorowski.

As exibições ocorrerão sempre aos domingos, com sessões às 17h e 19h.

SERVIÇO:

02/06 - 17H MEU TIO



O sr. e a sra. Arpel têm uma casa incrivelmente funcional em um bairro muito bem localizado. Infelizmente, a sra. Arpel também tem um irmão, o sr. Hulot, que a impede não menos incrivelmente de progredir. Hulot, por outro lado, tem um excessivo amor pelos cães, de preferência de rua. Isso não seria muito grave se o filho dos Arpel, Gerard, não tivesse uma tendência a imitar o tio, demonstrando, como ele, uma clara aversão às belezas industriais. Por fim, o sr. Arpel, com ciúmes, consegue afastar Hulot, após tentativas frustradas de fazê-lo ser contratado em sua fábrica ou se casar com sua vizinha esnobe.

Versão em francês
em cores
legendas em português
110 min
som mono
 
16/06 - 17H TEMPO DE DIVERSÃO

“Na era da Economic Airlines um grupo de mulheres norte-americanas organiza uma viagem turística. O programa inclui uma capital por dia. Chegando a Paris, elas notam que o aeroporto é exatamente o mesmo que tinham acabado de deixar em Roma, as estradas são as mesmas de Hamburgo e a iluminação pública é estranhamente semelhante à de Nova York. O cenário não mudou de uma cidade para outra. Elas se movem nesse cenário internacional que é real, eu não o inventei. Aos poucos, encontram franceses. Um pouco de calor humano é criado, o que lhes permite, na falta de estar em um ambiente ‘parisiense’, passar 24 horas com nativos, entre eles, o sr. Hulot” (Jacques Tati).

Versão em francês
em cores
legendas em português
114 min
Som Dolby SR – Dolby digital e DTS

23/06 - 17H PARADE


Apesar de ter sido filmado em sua maior parte em vídeo (Tati pressentiu a transição gradual para o digital), financiado pela televisão sueca, Parada foi realizado com o objetivo de ser lançado nos cinemas, mesmo que um espetáculo circense tenha sido privilegiado neste que seria seu último filme. Interpretando o sr. Loyal, Tati garantiu a sequência dos números de sua apresentação de circo, dando vida nova às mímicas de Impressions Sportives, que ele realizava no music hall.

Versão em francês
em cores
legendas em português
85 min
som mono

 
30/06 - 17H AS AVENTURAS DO SR. HULOT


Projetista da pequena empresa fabricante de automóveis Altra, sr. Hulot projeta um caminhão engenhosamente dotado de várias modernidades para ser exibido no Salão Internacional do Automóvel de Amsterdã. Ele acompanha o protótipo desde Paris a bordo do caminhão da Altra, escoltado pelo pequeno carro esportivo amarelo de Maria, a jovem norte-americana relações-públicas da empresa. Um pneu furado, a falta de combustível, colisões e problemas com funcionários da alfândega irão retardar a chegada do grupo. Eles viajam pelas estradas rurais flamengas e holandesas em busca de um mecânico. O carro chegará tarde demais para a exposição. As aventuras do sr. Hulot no trânsito louco foi filmado na Holanda.

Versão em francês
em cores
legendas em português
93 min
som mono
 
 MOSTRA JODOROWSKI
 
 
09/06 - 19H


23/06 - 19H EL TOPO

30/06 - 19H A MONTANHA SAGRADA

*** Listas, listas e mais listas ***


É a segunda vez que a Liga dos Blogues Cinematográficos realiza entre seus membros - mais de 60 blogueiros do Brasil e Portugal - uma apuração pedindo que listassem seu top 20 pessoal com os filmes produzidos no período 2000-2009.

O novo resultado não traz novidade na liderança do ranking: Cidade dos Sonhos (2001) de David Lynch conquistou o 1o lugar nas duas edições da eleição. A primeira enquete foi realizada ainda em meados da década passada. Nesta lista publicada em maio, o resultado contabilizado foi o seguinte:

TOP 20*


01 - 01º - Cidade dos Sonhos (2001), David Lynch (2º)

02 - 05º - Kill Bill vol. 1 (2003), Quentin Tarantino (147º)

03 - 33º - Cidade de Deus (2002), Fernando Meirelles & Kátia Lund (23º)

04 - 02º - Elefante (2003), Gus Van Sant (47º)

05 - 03º - Antes do Pôr-do-Sol (2004), Richard Linklater (44º)

06 - 09º - Amor à Flor da Pele (2000), Wong Kar-Wai (1º)

07 - novo - Bastardos Inglórios (2009), Quentin Tarantino (74º)

08 - 11º - Sangue Negro (2008), Paul Thomas Anderson (7º)

09 - novo - Amantes (2008), James Gray (175º)

10 - 18º - Dogville (2003), Lars Von Trier (19º)

11 - 27º - A Viagem de Chihiro (2001), Hayao Miyazaki (4º)

12 - 20º - Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), Irmãos Coen (31º)

13 - 08º - Caché (2005), Michael Haneke (8º)

14 - 04º - Marcas da Violência (2005), David Cronenberg (21º)

15 - 19º - Fale com Ela (2002), Pedro Almodóvar (14º)

16 - 25º - Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança (2004), Michel Gondry (10º)

17 - 10º - Encontros e Desencontros (2003), Sofia Coppola (38º)

18 - 06º - Amantes Constantes (2005), Philippe Garrel (139º)

19 - 21º - Mal dos Trópicos (2004), Apichatpong Weerasethakul (11º)

20 - novo - O Labirinto do Fauno (2006), Guillermo Del Toro (50º)

* Em verde, a posição na primeira enquete realizada pela Liga dos Blogues. E o número entre parênteses em vermelho, a colocação do filme no The 21st Century's Most Acclaimed Films.



terça-feira, 14 de maio de 2013

Mostra do Filme Livre 2013 no CCBB-DF


MOSTRA FILME LIVRE 2013

 

Em sua 12ª edição, inicia-se hoje (terça-feira 14/05) a segunda semana da Mostra do Filme Livre 2013, realizada pelo segundo ano consecutivo no Centro Cultural Banco do Brasil-DF, com exibições gratuitas.
 

cineasta mineiro Carlos Alberto Prates Correia

Na primeira semana, a MFL 2013 realizou uma retrospectiva com todos os filmes do diretor homenageado deste ano, o cineasta mineiro Carlos Alberto Prates Correa. Para quem perdeu ou não pode acompanhar, resta a oportunidade de conferir a entrevista com Carlos Alberto presente no catálogo do festival, distribuído gratuitamente na entrada da sala de cinema do CCBB (*importante: verificar a necessidade da troca de ingressos pelo catálogo).
 
 

vinheta "Ser ou não ser Trash?"
 
Para os fãs do cinema de gênero, o destaque desta segunda semana de exibição é a mostra paralela “Ser ou não ser Trash?”, com atenção especial à obra do diretor Rodrigo Aragão (Mangue Negro (2008), A Noite dos Chupacabras (2011) e a estréia de Mar Negro (2013), o último filme do realizador). O cineasta capixaba também ministrará a oficina de “Efeitos Especiais em Maquiagem”.

A mostra segue até o dia 26/05 com a exibição de premiadas produções recentes e de difícil circulação, como As Horas Vulgares (2011, de Rodrigo de Oliveira e Vitor Graize), Balança mas não Cai (2012, de Leonardo Barcelos) e Doméstica (2012, de Gabriel Mascaro) e uma dezena de mostras paralelas (Panoramas Livres, Pílula, Sexuada, Coisas Nossas, Outro Olhar).

Segundo dados do catálogo, para a MFL 2013 foram inscritos 742 filmes, sendo apenas 105 feitos com apoio estatal direto. 22 estados da federação e o Distrito Federal inscreveram projetos na mostra. Mais de 200 filmes foram selecionados para a mostra deste ano, sendo os estados com maior números de representantes o Rio de Janeiro (com 51 filmes), São Paulo (47 filmes), Minas Gerais (21 filmes), Ceará (10 filmes), Bahia (7 filmes) e Pernambuco e Paraná (com 6 filmes cada)

Em 11 edições do evento, o público foi de 47 mil pessoas, com a exibição de mais de 2800 filmes, entre curtas e longas de todos os formatos e gêneros.
 
A programação da mostra em Brasília e outras informações, você confere no site oficial do evento.
E no blog dos curadores da mostra, opiniões e resenhas "não oficiais" dos filmes estão disponíveis. Vale uma conferida.
 
Serviço:
O quê: Mostra do Filme Livre 2013
Quando: de 07 a 26 de maio de 2013
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil
Importante: exibições gratuitas.

domingo, 12 de maio de 2013

Debate Cinematográfico: abril 2013

Sai um pouco atrasada esta retrospectiva do debate cinematográfico durante o mês de abril de 2013, mas ainda há tempo de fazer barulho:

OS FILMES MAIS ACLAMADOS DO SÉCULO XXI

Em sua sexta edição, o site australiano mantido por Bill Georgaris, They Shoot Pictures, Dont They? concluiu durante o último mês a publicação da lista dos filmes mais influentes e reverenciados do século XXI. O resultado da lista deste ano calcula os votos da última eleição dos Maiores Filmes de Todos os Tempos promovida ano passado pela revista inglesa Sight & Sound. Pontuação que concede ao ranking de 2013 dos Filmes Mais Aclamados do Século XXI do TSPDT maior relevância devido a amplitude da enquete promovida pela instituição inglesa British Film Institute com mais de 846 críticos, programadores, distribuidores, acadêmicos, escritores e 358 diretores de mais de 73 países.

A edição de 2012 da eleição dos Maiores Filmes de Todos os Tempos da Sight & Sound trouxe como grande novidade a aparição de Um Corpo que Cai (1958, Alfred Hitchcock) na primeira colocação como o favorito entre os críticos e Contos de Tóquio (1953, Yasujiro Ozu)  entre os diretores. Uma surpresa, visto serem estes os primeiros filmes a alterarem o "estado das coisas" desde quando a prestigiosa revista inglesa realizou a primeira eleição em 1952, ano em que Ladrões de Bicicleta (1948, Vittorio de Sica) foi eleito o "maior filme de todos os tempos". As listas conseguintes (realizadas a cada 10 anos: 1962, 1972, 1982 e desde 1992 e 2002 também é feita uma apuração paralela somente com diretores) foram todas unânimes na escolha do filme magno da história do cinema: a produção norte-americana Cidadão Kane (1941, Orson Welles). Talvez ainda seja cedo para sabermos se há algo de "espírito do tempo" na passagem do cedro de Cidadão Kane para Um Corpo que Cai, uma inversão de sinais ou uma mudança de signos.

O Fato é que a eleição ratificou os darlings da produção cinematográfica dos últimos 13 anos. Em especial, Amor à Flor da Pele (2000, Wong Kar-Wai) e Cidade dos Sonhos (2001, David Lynch). Os dois títulos fincaram a terceira e quarta posições, respectivamente, num recorte entre os filmes mais votados produzidos pós-1968. A aparição de dois títulos asiáticos entre os primeiros colocados (além do japonês Contos de Tóquio, primeiro lugar na enquete realizada entre os diretores, a produção do diretor Wong Kar-Wai sediado em Hong Kong, Amor à Flor da Pele foi o filme mais votado do século XXI) estabelece a Ásia como uma terceira potência imperialista cinematográfica ao lado da Europa e da América do Norte. Com diversos focos de produção (Índia, China, Japão, Coréia do Sul, Taiwan, Tailândia, Filipinas, Israel...) e obras de alcance e diálogo mundial e local (e com os olhos do mundo voltados para eles), os asiáticos mostras as garras e cravam a primeira, terceira e quarta colocação no ranking de 2013 dos filmes mais aclamados do século XXI (respectivamente, Amor à Flor da Pele, As Coisas Simples da Vida (2000, Edward Yang) e A Viagem de Chihiro (2001, Hayao Miyazaki).


TOP 10 FILMES MAIS ACLAMADOS DO SÉCULO XXI
01
Amor à Flor da Pele (2000, HK; Wong Kar-Wai)
02
Cidade dos Sonhos (2001, FRA; David Lynch)
03
As Coisas Simples da Vida (2000, TAI; Edward Yang)
04
A Viagem de Chihiro (2001, JAP; Hayao Miyazaki)
05
As Harmonias de Werckmeister (2000, HUN; Béla Tarr)
06
A Árvore da Vida (2011, EUA; Terrence Malick)
07
Sangue Negro (2007, EUA; Paul Thomas Anderson)
08
Cachê (2005, FRA; Michael Haneke)
09
Arca Russa (2002, RUS; Aleksandr Sokurov)
10
Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembrança (2004, EUA; Michel Gondry)

 
A 11ª, 12ª e 13ª colocação na lista geral também pertencem a filmes e diretores asiáticos, respectivamente: Tropical Malady (2004, Apichatpong Weerasethakul), O Tigre e o Dragão (2000, Ang Lee) e Eternamente Sua (2002, Apichatpong Weerasethakul). Mais 30 títulos (entre co-produções e produções originais) compõem o TOP 250.
 
Ainda sobre um mapa geopolítico do cinema, somente 11 produções originais ou co-produções de cineastas latino-americanos marcaram presença na lista. E da África, apenas 03 títulos produzidos neste século foram reverenciados o suficiente para aparecerem: nas 115ª e 116ª posições, respectivamente, Waiting for Happiness (2002), do diretor mauritano Abderrahmane Sissako e Moolaade (2004), do senegalês Ousmane Sembene. E na 239ª posição, outro filme de Abderrahmane Sissako, Bamako (2006). 

Entre nosotros, da edição de 2012 para 2013, os dois títulos latino-americanos mais referenciados trocaram de posições na liderança e vice-liderança do ranking. Enquanto no ano passado o filme mexicano E Sua Mãe Também (2001, Alfonso Cuáron) estava na 11ª colocação na classificação geral, este ano caiu para uma (ainda) respeitosa 28ª. O que faz de Cidade de Deus (2002, Fernando Meirelles) o novo líder latino-americano na memória de um júri formado marjoritariamente por críticos norte-americanos e europeus. Cidade de Deus avançou timidamente da 27ª para a 23ª posição com o resultado da votação na revista Sight & Sound. O mexicano Guillermo del Toro incluiu dois filmes seus na lista, na 50ª e  221ª colocações respectivamente: O Labirinto de Fauno (2006) e A Espinha do Diabo (2001). Outros dois diretores mexicanos aparecem na classificação: Carlos Reygadas (com Luz Silenciosa, de 2007) e Alejandro González Iñárritu (Amores Brutos, de 2000). A diretora argentina Lucrécia Martel consta na lista com três obras: A Mulher sem Cabeça (2008) na 62ª posição, O Pântano (2001) na 67ª e A Menina Santa (2004) na 127ª.

Completam a lista de filmes latino-americanos, dois títulos nunca distribuídos no Brasil (mas disponíveis no mundonet): o documentário Nostalgia da Luz (2010, Patrício Guzmán) na 178ª posição e o argentino La Libertad (2001, Lisandro Alonso) na 245ª.

  
 
CONTRACAMPO #1OO

Na centésima edição da revista online Contracampo (que completará este ano 15 primaveras no ar!) críticos foram convocados e textos foram alinhavados para debaterem a... Crítica cinematográfica. Num tipo de inflexão necessária de tempos em tempos, momentos de repescagem onde não longe, uma espécie de auto-análise selvagem é elaborada. Foi um levantamento interessante, especialmente por três momentos:

O diretor Ricardo Pretti falando sobre suas expectativas em relação a crítica enquanto realizador, nos demonstrando um tipo de diálogo possível no contexto cinéfilo...

http://www.contracampo.com.br/100/artreflexoespretti.htm

O texto do crítico francês Serge Daney fazendo uma reflexão amarga sobre os caminhos da crítica no início dos anos 90 (Daney morreria em 1992). Num tipo de pensamento proveniente de um contexto bem restrito, de um dos nomes de frente da crítica que se queria militante - do fim dos anos 1960 e por boa parte dos anos 1970 - herdeira direta do movimento crítico anterior que havia lançado as bases das Políticas de Autores cinematográficos...

http://www.contracampo.com.br/100/artderrotadopensamento.htm

E pelas respostas ao questionário enviado a alguns críticos, fazendo um balanço interessante das inquietações gerais com representantes das mais diversas defesas de um tipo ideal de cinema...

http://www.contracampo.com.br/100/artenquetecritica.htm
 


MOVIMENTO QUEBRE O BALCÃO - POR UMA POLÍTICA CULTURAL DEMOCRÁTICA EM ALAGOAS
 
Movimento alagoano de cineastas reinvidicam o fim da "política de balcão" que se instaurou no estado e impossibilitou editais de fomento a produção de filmes locais. Segue a introdução da esclarecedora carta aberta destinada ao governo do estado solicitando o fim da prática, com link para o abaixo-assinado. A luta por processos democráticos de financiamento na promoção cinematográfica continua...

 
CARTA ABERTA AO GOVERNO DO ESTADO DE ALAGOAS E À SOCIEDADE
 
Os cineastas de Alagoas divulgam este documento para manifestar sua indignação com o retrocesso do GOVERNO DO ESTADO DE ALAGOAS em sua política de fomento ao setor, que atualmente recua de um processo democrático para aderir à velha política de balcão ao patrocinar diretamente com verba pública um longa-metragem nacional, ao mesmo tempo que alega não possuir recursos nem previsão para lançar o 3º Prêmio de Fomento à Produção Audiovisual em Alagoas, principal e única via de incentivo à cultura através de editais no Estado.
 
Para entender a importância da conquista do edital e os fatos recentes, é preciso uma breve contextualização: em resposta às mobilizações do setor audiovisual, em 2010 e 2011, a Secretaria de Estado da Cultura lançou as duas edições do Prêmio de Fomento à Produção Audiovisual em Alagoas. Durante os dois anos, esse único edital viabilizou a realização de dez curtas-metragens (cinco por edição) com recursos provenientes do Fundo de Desenvolvimento de Ações Culturais (FDAC). Cada filme custou R$ 15 mil na primeira edição, e R$ 20 mil na segunda. Apesar do valor extremamente baixo – um curta profissional custa em média R$ 100 mil –, a iniciativa causou grande impacto no setor, principalmente pelo grande esforço dos cineastas. Os filmes repercutiram bastante junto ao público e à imprensa local, e alguns têm sido selecionados e premiados em festivais locais e nacionais desde então. Toda essa movimentação foi responsável por estimular novos realizadores e aumentar significativamente o número, a qualidade e o acesso às produções culturais realizadas em Alagoas. Diante de um resultado tão significativo, a expectativa era de que, em sua terceira edição, o prêmio tivesse seu valor reajustado para se aproximar da realidade do mercado. O atual secretário de cultura, Osvaldo Viégas, comprometeu-se publicamente, inclusive, com o lançamento da nova edição. No entanto, o que está acontecendo é o contrário.
 
Mesmo com as insistentes pressões da categoria, a 3ª edição do edital de fomento ao audiovisual ainda não tem sequer previsão de sair, sob a alegação de falta de recursos por parte da Secretaria de Cultura. Para nosso assombro, no entanto, descobrimos, através da imprensa, que o documentário nacional de longa-metragem “OLHAR DE NISE”, de direção do alagoano Jorge Oliveira e de Pedro Zoca, recebeu um patrocínio do governo estadual no valor de R$ 200 mil para sua filmagem parcial em Alagoas. Quantia essa suficiente para financiar dez curtas locais (tendo como parâmetro o último edital de 2011). Ainda maior foi o choque ao constatarmos, por meio do Portal da Transparência do Governo do Estado, que a primeira parcela do patrocínio (R$ 150 mil) foi paga em setembro de 2012, justamente com os recursos do Fundo de Desenvolvimento de Ações Culturais - a mesma fonte que financiou as duas primeiras edições do único edital alagoano, e que, naturalmente, seria a provedora de recursos da terceira.
 
Link para a petição pública:
http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2013N39411

O grupo também conta com um canal no Youtube com as manifestações do movimento:
http://www.youtube.com/channel/UCRcp1kGO5eScWkQPvTeH_zg

E uma página no Facebook:
https://www.facebook.com/quebre

sábado, 20 de abril de 2013

O Som ao Redor (2012, 131min); de Kléber Mendonça Filho


Parte I:

A Tela

 

De início, eu gostaria de abordar uma imagem audiovisual marginal, raramente o centro das atenções: os letreiros. Imagem limítrofe, os letreiros são o primeiro alerta que as imagens a seguir - per si existentes – estão, na verdade, inseridas numa cultura de mercado, ao nos apresentarem o elenco, as personagens, a equipe técnica e os patrocinadores empenhados na produção daquele item. Dentro de uma rotina sócio-econômico-política de acúmulo de telas (telão, televisores, PC’s, videogames, gadgets, outdoors, cartazes, vitrines), os letreiros embrulham um produto e agem à maneira de uma barreira alfandegária na fronteira de um universo novo; são a senha inicial que tivemos algum fluxo de percepção da realidade suspensa ou, ao menos, (ex)partilhada.

No caso do cinema, os letreiros podem ser assumidos como forma de linguagem: podem antecipar elementos ou fatos da história que veremos a seguir; também podem ser estilizados, como um interlúdio entre o ‘apagar a luz’ e o ‘acender a tela’ na sala de cinema; e na banda sonora, podem vir acompanhados de algum som específico - uma melodia que nos antecipe a cadência do filme ou algum ruído de cena que localize onde nós estamos. Os letreiros são considerados por tudo isso a ‘Apresentação’ do filme. Eles surgem ainda no período mudo quando placas com as falas descritas faziam à vez da voz dos personagens - a palavra escrita era tornada imagem, figurada - e alçada a condição de som, na ausência deste. As legendas de tradução são descendentes nesta família entre outras espécies de matérias-primas cinematográficas: tratam-se da palavra inscrita sobre a tela (muro, parede, cartaz, quadro-negro, folha de papel, página de livro, revista, jornal, qualquer letreiro raspado na película ou digitada).

Se assistirmos ao primeiro curta-metragem de Kleber Mendonça Filho - A Menina do Algodão (2002) - logo no início, uma placa (um still) em preto & branco na tela nos adianta a lenda de uma garota-fantasma que aterrorizava os banheiros das escolas de Recife nos anos 1970. Sem esse texto inicial, talvez as imagens desse filme de terror baseado em lendas urbanas se tornariam um tanto abstratas.

Já no último curta-metragem de KMF, Recife Frio (2009), após apresentarem o elenco do filme, com a simples frase "daqui alguns anos..." nos letreiros já seriam o suficiente para acreditarmos que aquelas são as imagens de um porvir, quando a capital pernambucana famosa por seu calor tropical se tornará uma cidade de clima frio semi-polar. Porém, a trilha sonora reciclada de algum antigo filme fantástico nos créditos iniciais resgata-nos (na verdade, reforça o efeito) de nos perdermos no tempo; pelos ouvidos, ela (a melodia) nos soa que uma alteração no espaço e no tempo ocorreu, bem aqui, diante nossos olhos: estamos agora acompanhando o enredo de uma ficção, como poderíamos considerar todas, científica. Por isso mesmo, serão necessários documentos e provas que renovem nossa crença no percurso obrigatório exigido na construção daquele multiverso autônomo, círculos de referências que se fechem.

Não por acaso, o que nos chega em mãos vindo do futuro (e do estrangeiro) é um programa de tv argentino, uma vídeo-reportagem ecológica.  Como de praxe na tele-visão, o incontestável surge: uma narração que afirma a todo instante “vejam o que digo” é suplantada por imagens de celular, fotos, propagandas turísticas, previsões do tempo e até um videoclipe, que agora acreditamos serem arquivos de um tempo que ainda nem vivemos.

O Som ao Redor (2012) parece fechar o triângulo eqüilátero das condições de existência no presente desses arquivos do futuro. Pelos boatos que (o)correm de mais personagens vindouros numa (futura) produção ceilandense, desconfiamos que o repórter argentino (Andrés Schaffer) e o francês (Yannick Ollivier) dono de pousada em Recife Frio e revistos em O Som ao Redor são já agraciados viajantes do tempo. Caso essa suposição seja verdadeira, poderíamos entrever uma crença KMFiana - de Platão a Walter Benjamin - na fé de que toda comunicação é fruto de transmissão humana. Portanto, para que essas imagens existam foi (será) necessário que alguém complete essa tripartite: produção, distribuição e exibição.

Enquanto nos letreiros iniciais d’O Som ao Redor, um still apresenta atores e respectivos personagens, numa diagramação aliada à uma trilha sonora que reforça a sensação do retorno aos tempos de algum bang-bang. Essa melodia faroeste soará por mais instantes enquanto veremos fotografias antigas no telão, provavelmente da mesma categoria e época da música que toca: são registros do passado. Essas e mais outras fotografias que aparecerão ao longo do filme estabelecerão um duplo elo de significados; enquanto memória serão nostálgicas pela imagem do espaço (ou paraíso) perdido e amargas enquanto sina daquilo que se repõe - tipos de recapitulação do ambiente, numa lembrança que ruas de chão batido ainda hoje são comum em periferias brasileiras, locais desassistidos de cinemas; e enquanto arquivos passarão por uma mesma natureza de representação (sejam elas originais ou piratas, digitais ou analógicas) e funcionarão como prova (ou o que restou) de um combate com o mundo real, local e contingente. E não poderíamos esquecer de outras letras que aparecerão ao longo do filme: três intertítulos recortam a divisão episódica do filme, serão eles – ‘Cães de Guarda’, ‘Guardas-Noturno’ e ‘Guarda-Costas’.

  

 

Parte II:

A metáfora

             

        No campo imaginário do qual participa a representação cinematográfica, temos a possibilidade, sob o código do faz-de-conta, de conviver com os elementos mais brutais protegidos pela distância no espaço e no tempo, entre a encenação e a exibição, e pela diferença de olhar, entre quem está do lado de lá e de cá da tela. Os regimes comerciais de produção de imagens são os que mais privilegiam as benesses dessa demarcação: rígida pela aparência (aos conflitos os mais insolúveis são permitidos pousarem por de mesma natureza e vice versa) e dissimulada por efeitos (as reais conseqüências dos acontecimentos na filmagem causariam um profundo desapontamento no espectador). Contudo, a representação funciona também como campo de expressão e é onde poderíamos trazer à superfície, com extrema facilidade, elementos que correriam o risco de permanecerem ocultos na realidade circunspectra por uma sociedade, no nosso caso – por projeção, imaginação e/ou legalidade - o Brasil; comportamentos, histórias, personagens, situações, tipos e vidas que, seja por censura, recriminação, repreensão, condenação, eliminação, delação, crucificação, maledicência ou pregação, seriam omitidas ou perderiam o direito a representação. Neste momento, enxergamos uma primeira potência da encenação (em cena, ação!) como gesto da ordem do Político (não poderíamos esquecer que o nosso sistema eleitoral também é considerado representativo). Por trás de todas essas ideias, a noção de que a tragédia de um, equivaleria ao drama de todos, como se ocorresse um processo de identificação. Embora, invariavelmente tudo o que venha a emergir na tela - a mais simples existência, a mais rápida aparição - estará sempre marcada por significados e valores morais: uma discriminação. O cinema é o lugar por natureza do contato com um eterno outro, inclusive (ou principalmente) quando aquela é a minha imagem: eterna instauração da diferença, do não pertencer, que o cinema demarca.

Como proceder, então?

Em O Som ao Redor, conhecemos Bia (Maeve Jinkings). Ela é uma típica dona do lar, casada e com um casal de filhos para criar. Sofre de insônia e tem as crises de sonambulismo agravada pelos latidos de um cachorro na vizinhança. Bia é também essa personagem que não se refuta em cometer atos falhos, jogar calmantes para o cachorro vizinho parar de latir e assim permitir que ela durma ou em estourar uma briga com a empregada devido um eletrônico qualquer queimado.

        Enquanto mãe, Bia e família formam apenas um quadro entre outros na galeria mais ampla do que poderíamos denominar (só pelo gosto da leitura) de “tradicional família pernambucana” (termo que encontra real significância na figura do velho senhor de engenho, aquele ainda em cena, querendo restaurar a Ordem a todo custo – a analogia do tubarão). Mas o que nos interessa vem a seguir: enquanto espectadores, conseguimos avançar diante sua privacidade para saber aquilo que ela tenta disfarçar pelo risco da má impressão – em sua rotina de dona de casa, ela puxa um baseado.  

O que ocorre aqui é uma acumulação de dados. Bia é Mãe, consequentemente Mulher, inserida numa rotina do lar e, ademais, sabemos que ela é dependente química. Todas essas atribuições são vistas no filme como elementos constituintes da multiplicidade (poderíamos ainda atribuir as pechas de nordestina, urbana, patroa, eletrodoméstica) na unidade do Ser (estão todas depositadas num mesmo corpo que as carrega). Desta operação, gostaríamos de ressaltar a coragem de alijar estes dois signos, “Mãe” e “Drogas”, de maneira pouco vista na teledramaturgia, embora cada vez mais presente na realidade brasileira: não temos em O Som ao Redor, o já tão explorado ‘mães com filhos drogados’, mas o novo incômodo das ‘mães usuárias de drogas’.

O filme foge de dois julgamentos ligeiros que a representação poderia produzir – a que condena ou a que apenas tolera àquela existência: se a esse gesto um tanto transgressor de ainda fumar maconha após casamento e maternidade poderíamos julgar como um desvio (estamos na ordem da Moral), o filme a descrimina no gesto simples mesmo de trazê-lo a arena pública de debate, ao expô-lo.  Nesse mesmo movimento a descreve: ao ser identificado, o consumo torna-se também político (os dados acumulados instauram a diferença entre Bia e as outras mães de família que não compartilham do mesmo gesto e ao mesmo tempo a partidariza entre as que por vício ou desejo assim agem).

Nesse ponto, seria interessante pensarmos o uso da misè én scene que o consumo de cada tipo de droga realiza. Das mais difíceis de dissimular – ao exemplo da maconha com seus farelos, cheiro forte e olhos vermelhos - às mais simples de disfarçar, que por processo de montagem seriam representadas por elipses temporais. A maconha por participar de um debate público maior, funciona inclusive como um termo sinônimo para ‘drogado’, no processo de anonimato a que são submetidos o consumo dos outros tipos de ‘entorpecentes’ (lícitos e ilícitos, compradas no mercado negro ou receitadas por prescrição médica), muitos inclusive, mais comuns, consumidos em maior escala e com maiores prejuízos para a sociedade.

Uma parcela da população pretende legitimar-se dependente química. O pedido de legalização visa antes de tudo o direito a liberdade de declaração e expressão pública, aos que por assim optarem; em termos políticos, realizar o desejo de assumir-se, para os possíveis avanços sócio-políticos que daí possam surgir. Um deles, o planejamento público do espaço de consumo com a construção de parques e espaços de convivência. Um outro, a regularização do plantio e produção da cannabis, com as devidas normalizações e taxações mercantis, permitindo o mais relevantes dos ganhos para a sociedade – a redução dos danos e a preservação da saúde física e psíquica do dependente e comunidade.

        Por fim, nas duas vezes que vi O Som ao Redor, um cenário circunstancial me chamou atenção numa via particular: a cozinha de Bia (Maeve Jinkings). Viajo as cozinhas de minhas tias (RN): os potes de biscoitos em cima da mesa juntos aos copos e à garrafa de café, os móveis e os utensílios antigos, porém conservados, os vários tipos de rendas e bordados, panos de mesa, panos de prato, com todas as peculiaridades de uma cozinha nordestina, incluindo o velho fogão a lenha em muitas delas como a restaurar um tipo de inteligência original brasileira, feita da disponibilidade e mistura do que esta ao redor. A essa lembrança, acrescento outra parlenda pessoal narrada por um amigo, relatando que numa viagem a Portugal, foi questionado se os cafés da manhã nas residências brasileiras eram tão ostensivos como os vistos nas novelas da Globo. Esses causos, mais do que anedotas pessoais são interessantes por porem em jogo visões de mundo. E para mim, por questionar por que continuamos a conceder ao Cinema um privilégio de exposição, se ele apenas participa de um regime indiferenciado de produção de imaginários num multiverso de representações que não cessam de expandirem-se em canais e conteúdo, onde só resta (às representações) ocuparem umas às outras? Ao mesmo tempo, restauram outros aspectos políticos dessa mesma representação, mas agora invertendo a moeda: não mais o que vemos, mas como somos vistos? A referência que o português tinha das cozinhas brasileiras, era a de uma cozinha global, imagem totalizadora a negar as diferenças regionais e a reforçar os excluídos sociais: uma mesa de café numa residência nordestina não é uma mesa de café das mansões de alto luxo da floresta da Tijuca e apartamentos do Leblon. E não custa (re)lembrar: o representado não é o real ;D

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Câmara Escura (2012, 25min); de Marcelo Pedroso

Marcelo Pedroso dando os últimos retoques na "câmara escura"
 
por Francisco Amorim

Isto não é um filme (sério)

Começam as imagens na tela, um movimento de câmera desce do topo dos prédios às fachadas das casas de algum bairro nobre de Recife, capital pernambucana.  E vemos um rosto, por enquanto, desconhecido. Tratam-se de pistas falsas, imagens ainda sem foco.

Do que podemos adiantar, Câmara Escura não será um tratado – seríssimo – sobre uma preocupação bastante mostrada na recente produção das trupes cinéfilas: a cidade & a encenação filmada (ou não), possível (ou ilegal). Ou ainda, subversiva (e ao criminoso a crítica e a crise) deste espaço filmado.    


 Os bastidores de um crime

            Pouco a pouco, os planos de filmagem serão revelados e para que possam ser executados, (nós, espectadores) somos tele-transportados para outro local: um laboratório onde veremos a confecção de um artefato – a tal câmara escura do título; um estúdio - um local do pré-visto. Esta antecipação seria um privilégio, se não descobríssemos, muito em breve, o imprevisto: seremos envolvidos num crime e o pior é que acabamos de testemunhar como tudo se instalou.                       

Um crime implica autores direto(re)s, executores. E destes, a identidade (literalmente, numa cena do filme) será revelada:

 
=>    Irmãos Pretti: membros do coletivo cearense Alumbramento, assinam a direção de dezenas de outros filmes (contam com mais comparsas). Curioso caso da reincidência de irmãos-cúmplices na história do cinema. Pelas características físicas, são gêmeos univitelinos e estão na faixa dos 20 aos 30 anos.

=>    Marcelo Pedroso (MP): membro do coletivo pernambucano Símio Filmes, cabeça (ou talking head) da gangue, 30 anos declarado. Rapaz moreno, segundo as descrições. Sobre este, mais notas:
 

Teleguiados por Marcelo Pedroso, já estivemos antes num laboratório. O retorno a este espaço (seriam o mesmo nos dois filmes?) provoca-nos a avançar em conclusões sem força de decreto - falaremos sobre estética. Assim pensada, a compreensão dessa “estética MP” teria de extrapolar este universo do falso (fictício) e abarcar todos os documentos com essa marca: resumindo num tema e num slogan, diríamos “Marcelo Pedroso é um cineasta (do) pós-humano”:

No longa-metragem KFZ-1348 (2008, co-dirigido por Gabriel Mascaro), os nove personagens do filme foram os proprietários do Fusca de placa KFZ-1348 da fábrica (1959) ao ferro-velho (2008). Os de carne e osso funcionam aqui apenas como veículos da narrativa daquele que está no centro e é o foco do filme, o automóvel. Em Pacific (2009), as pessoas têm no lugar das mãos, câmeras portáteis. Estamos próximos das ficções científicas, a máquina se acopla, torna-se um invólucro qualquer – o que leva a perceber: nos filmes de Marcelo Pedroso, o corpo humano é quem faz papel de acessório.        

            Sendo assim, o curta-metragem Corpo Presente (2011) parece melhor compreensível nesse contexto e ganha um tom de obra testamento - “Quando estamos diante de algo que, sabemos, vai desaparecer”, nos alerta a sinopse. Enquanto no filme se desenrola os preparativos funerários para que um corpo (feito em molde de gesso, não orgânico) seja depositado numa urna crematória, numa encenação muito próxima da preparação da câmara escura. Inclusive, o que vemos em ambos os filmes são bisturis cortarem isopor e tecidos, apesar das aparências.
 

Um Plano Perfeito?

O roteiro da trama é simples: como garotos que retornam da escola para casa buzinando as campainhas da vizinhança (por diversão e perversão), Marcelo Pedroso tendo em mãos a tal câmara escura (enfim: uma caixa de madeira contendo uma mini-câmera filmando e um bilhete com a introdução do texto “Metáforas da Visão” de Stan Brakhage), aperta o interfone das residências e apartamentos e anuncia uma encomenda para a casa. Abandona a caixa no portão e parte com o restante da trupe que o aguardava num carro - de onde também acompanhávamos confortavelmente a cena (é importante não esquecer: tornamo-nos testemunhas oculares do crime).

A brincadeira, verdadeira coisa de arruaceiros, termina sem graça: quando retornamos aos domicílios para saber como foi a recepção do nosso presentinho, descobrimos que a trama ganhou um desfecho policial. Num dos lares, ficaram apreensivos com o conteúdo da caixa, desconfiaram que pudesse ser uma bomba. Noutro, cabrearam ser a tentativa de assaltantes conhecerem a rotina da casa. Em retrospecto, esse resultado frustrado de adentrar as residências parece-nos o resultado previsível de uma variação, calculado em seu próprio dispositivo e eleito por montagem. Porém, e aí incide a força de Câmara Escura, do prejuízo da ação brotam revelações e associações:

A primeira e menos importante é certo imaginário sobre a criminalidade urbana que aterroriza as famílias, concedendo ao filme, por tabela, uma filiação bastarda (e forçada de minha parte) com o filme policial brasileiro (numa tradição que vai dos famosos crimes filmados dos primórdios à O Bandido da Luz Vermelha e Tropa de Elite, passando por Eles Não Usam Black-Tie e chegando ao recente e também concorrente da mostra curta-documental no FestBrasília deste ano, A Ditadura da Especulação).

O dispositivo fílmico também guarda semelhanças com o quadro “Câmera Escondida” do Sílvio Santos (e confere graus de parentesco na telerrealidade entre Marcelo Pedroso e Ivo Holanda) e afilia-se a algum tipo de programa social (ideológico?) dos cineastas pernambucanos para a distribuição e aparelhamento de câmeras pela população (Pacific, Domésticas).

 E poucas vezes os riscos que uma filmagem implica estiveram tão em jogo; o ato de dar o play (iniciar o jogo, a brincadeira, a atuação) inaugurou um campo de forças, de possibilidades, de realização e encarcerou a inocência. O alerta de bomba poderia ter provocado o alarme de um esquadrão de desarmamento. Imaginem a proporção que o filme ganharia e quantas imagens a mais teríamos? (Toda uma cobertura televisiva). Porém, tudo o que conseguimos foi um processo judicial, provavelmente por invasão de privacidade.
 

Não Temam, Temos um Herói!
 

Portanto, vemos em Câmara Escura a figura do Autor (sua Política e o seu Nome, todos assim em maiúsculo) serem promovidos ao status de criminosos. Como solucionar este ardil? Não sem cometer um outro ato um tanto arriscado.

Marcelo Pedroso, o culpado pelo filme, abandona o seu confortável e bom lugar (de controle), o papel de domador do circo, para oferecer-se aos golpes do público (a chacota e a identificação dissimuladas). Em outras palavras, saltou do extra-campo (ou da “vida real”) para o enquadramento produzido pela câmera, o campo. Jean-Louis Comolli traça uma genealogia desse gesto, de origem circense, e seus efeitos. Ele nos fala em cineastas burlescos:
 

De alguns anos para cá, o cinema documentário tem colocado o corpo (e, às vezes, a intimidade) daquela ou daquele que filma. O cineasta aparece, entra em cena, vem ao centro da arena. Não apenas interpreta um personagem mais ou menos próximo (Welles), mas faz de si mesmo um personagem, se interpreta, poderíamos dizer, em um gesto que, atravessando toda a história do cinema, traz a marca dos grandes burlescos: Keaton, Chaplin, Tati, Jerry Lewis, Moretti, Godard, Monteiro, Kitano, Mograbi...
 

Poderíamos continuar essa enumeração, no contexto audiovisual brasileiro (afora as ausências dos filmes que não vi): Amacio Mazzaropi, José do Caixão Mojica Marins, o Cabra Eduardo Coutinho, o Glauber televisivo no fim da carreira e Vladimir Carvalho em seus filmes, o conjunto da obra do coletivo Alumbramento, a aparição fantasma (no espelho) de Adirley Queirós e amealharmos todos a um tipo televisivo de frontman leadear, de Silvio Santos a Luciano Huck, do Chacrinha ao Chaves e de William Bonner ao Ratinho...

Só nos restam algumas questões: tomando "cineastas burlescos" como uma sugestão de conceito novo por J.L. Comolli, qual fato cinematográfico 'novo' surgiria daí? No nosso caso específico, o quê Marcelo Pedroso, ao se (ex)por em cena numa péssima aparência - aquela da má fotografia digital, quer (nos fazer) provar? Essas perguntas permanecerão em aberto, porque não menos importante: como terminar este texto?

Afirmei acima que o cinema de M. P. demarca uma passagem ao pós-humano. Câmara Escura parece contradizer em parte essa afirmação, para melhor afirmá-lo de outra forma: se há o generoso gesto de exposição do próprio corpo-sujeito-personagem-palavra-experiência-vida é para que estejamos cada vez mais próximos das maquinices do Inspetor Bugiganga do que da vira-latice do Chaves. Se há documentos e provas, elas tendem ao reality-show. E se há um herói (é necessário que M.P. volte ao local do crime para SALVAR o filme), ele por enquanto está caído.
 

E agora, quem vai querer se arriscar?
 

FIM

Continua...