quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Cineclube Ceicine: 01 ano de cineclube + mostra e dossiê Jean Garret



CINECLUBE CEICINE COMPLETA UM ANO
e realiza mostra dedicada ao trabalho do cineasta Jean Garret

No último dia 14 de agosto, o Cineclube Ceicine completou um ano desde que realizou sua primeira sessão, com o filme Intervenção Divina (2002, 92min), de Elia Suleiman, o cineasta privilegiado de nossa primeira mostra, "Elia Suleiman: o ninja da Palestina". Desde então, realizamos oito pequenas mostras temáticas e duas sessões especiais, somando até aqui, a exibição seguida de debate de 23 filmes. Filmes que privilegiaram os mais diversos recortes e histórias proporcionando diversas e variadas discussões abertas aos calores da hora.

Começando o segundo ano de trabalho, resolvemos retornar ao modelo da nossa primeira mostra e elegemos o segundo cineasta que terá direito a uma pequena mostra individual aqui no cineclube, oportunidade para nós aproximarmos mais da sua obra: Jean Garret.


A mostra “Jean Garret: Drama, Mistério e Muito Amor” inicia o segundo ano do cineclube e será a segunda mostra individual dedicada a um diretor. Além de diretor, nascido João Antônio Nunes Gomes da Silva, nas ilhas de Açores, Portugal (16/14/1946), Jean Garret também atuou como roteirista, produtor, ator e até figurinista (no filme Karina, Objeto do Desejo) no núcleo conhecido como Boca do Lixo, bairro que concentrou a produção cinematográfica na capital paulista nos anos 1970 e 1980. Jean atuou nos filmes A Herança (1970) e Meu Nome é Tonho (1969), de Ozualdo Ribeiro Candeias e O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968), de José Mojica Marins, quando assinou como Jean Silva. Nos seus últimos três filmes como diretor, assinou como J. A. Nunes nos títulos Entra E Sai (1986), Fuk Fuk à Brasileira (1986) e O Beijo da Mulher Piranha (1986).
Jean Garret morreu no dia 21/04/1996 na Cidade de São Paulo, depois de dez anos afastado da produção cinematográfica. Serão exibidos três filmes:

DIA 20/08
A FORÇA DOS SENTIDOS (Brasil, 1978, 100min)
Sinopse: Um escritor muda-se para uma casa de praia isolada numa ilha para escrever um novo livro e, gradualmente, se envolve com seus novos vizinhos ímpares enquanto acontecimentos repetem-se em espiral.
DIA 27/08
TCHAU, AMOR (1982, 95min)
Sinopse: Um radialista desempregado obcecado com suicídio encontra um pirralho rico.
DIA 03/09
O FOTÓGRAFO (1980, 90min)
Sinopse: Um fotógrafo profissional e inconsequente, especializado em nus, sonha com respeitabilidade e com a bela estudante universitária da janela vizinha.

*+*+*+*+*+*+*+DOSSIÊ JEAN GARRET+*+*+*+*+*+*+*

Jean Garrett, artesão da Boca do Lixo, por Ruy Gardnier in Revista Contracampo
Jean Garret, Autor Moderno, por Marcelo Ikeda in Cinecasulofilia
A parceria de Reynaldo Paes de Barros e Jean Garret, por Matheus Trunk in Revista Zingu!
O fantástico Jean Garret, por Jairo Ferreira in Cinema de Invenção
A Força dos Sentidos: fortuna crítica, por Carlos Primati in Cine Monstro
Tchau, Amor, por Andrea Ormond in Estranho Encontro
O Fotógrafo, por Leo Cunha in Revista Zingu!
O Fotógrafo, por Andrea Ormond in Estranho Encontro


*+*+*+*+*+*+*+RETROSPECTO PRIMEIRO ANO CINECLUBE CEICINE+*+*+*+*+*+*+*

*Mostras: “Ninguém vai rir: três-filmes-nová-vlna-extinta-Tchecoslováquia” (jul/2015); “Tempos Modernos: filmes no mundo do trabalho” (jun/jul 2015); “Mulheres em Vingança” (abr/mai 2015); “Surreal África, loucas aventuras” (dez 2014); “Negra Ação” (nov 2014); “Mistérios da Ilha: new wave do cinema australiano” (out/nov 2014); “Sessão da tarde à noite: dos filmes de muita ação” (set/out 2014); e “Elia Suleiman: o ninja da Palestina” (ago 2014)
*Sessões Especiais: Ressurgentes: um Filme de Ação Direta (2014, Dacia Ibiapina); Serras da Desordem (2006, Andrea Tonacci)
*Filmes: Sombras (1959, John Cassavetes); A Noite Toda (1962, Basil Dearden); Ninguém Vai Rir (1965, Hynek Bocan); Trens Estreitamente Vigiados (1966, Jirí Menzel); O Baile dos Bombeiros (1967, Milos Forman); A Longa Caminhada (1971, Nicolas Roeg); Pelos Caminhos do Inferno (1971, Ted Kotcheff); Aguirre, a Cólera dos Deuses (1972, Werner Herzog); Touki Bouki (1973, Djibril Diop Mambéty); Eles a Chamam de Caolha (1973, Bo Arne Vibenius); O Homem que Caiu na Terra (1976, Nicolas Roeg); A Vingança de Jennifer (1978, Meir Zarchi); Mad Max (1979, George Miller); Blade Runner - o Caçador de Andróides (1982, Ridley Scott); Cão Branco (1982, Samuel Fuller); A Luz (1987; Souleymane Cissé); Intervenção Divina (2002, Elia Suleiman); A Questão Humana (2007, Nicolas Klotz); O Que Resta do Tempo (2009, Elia Suleiman); Cosmópolis (2012, David Cronenberg); e Um Toque de Pecado (2013, Jia Zhangke)
*Equipe: Adirley Queirós, Alana Amorim, Antônio Balbino, Cássio Oliveira, Denise Vieira, Flávia Andrade, Francisco Amorim, Leandro Pezão, Lilian Bolognini, Lua de Abril, Marcelo A. Vivacqua e Sandro Vilanova

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Dôssie foturna crítica: Sombras (1959, 81min; John Cassavetes)



CASSAVETES, o batalhão de um homem só,

Se John Cassavetes tivera sido europeu em vez de norte-americano, as coisas teriam sido diferentes. Não há dúvida sobre isso. Ele roda seu primeiro filme, Sombras (Shadows), entre 1957 e 1959; nestes anos, na Europa, surgiram os chamados cinemas novos; e naquelas datas foram filmadas, para citar um punhado de títulos, Ascensor para Cadafalso (Ascenseur despeje l`échafuad, 1957) por Louis Malle, Paris nos Pertence (Paris nous appartient, 1958-1961), de Jacques Rivette, Acossado (À Bout de Souffle, 1959) de Jean Luc Godard, Os Incompreendidos (Les 400 coups, 1959) de François Truffaut, Hiroshima Meu Amor (1959), por Alain Resnais, Odeio Essa Mulher (Look Back in Anger, 1959) de Tony Richardson, Los Golfos (1959) por Carlos Saura, A Doce Vida (La Dolce Vita, 1959) de Federico Fellini, A Provocação (La Sfida, 1959) por Francesco Rosi, ou O Tempo Parou (Il Tempo si è Fermato, 1959) por Ermanno Olmi. Todos eles terão muito mais sucesso que o filme de Cassavetes e seus diretores, cada um com sua problemática e trajetória, desfrutarão de uma maior boa vontade do que terá Cassavetes em seu país. Por algo, é na Europa onde será melhor tratado. O ambiente cinematográfico é outro. Há mais abertura para mudanças. Na América do Norte não havia um "cinema do papai" para lutar contra, mas uma forte indústria assentada onde os códigos estavam rigidamente controlados. E Cassavetes decidiu lutar contra isso.

Uma luta de Titãs.




SOBRE os períodos de filmagem,

O filme foi rodado em 16mm por Cassavetes, que não tinha experiência anterior, sem um script determinado, essencialmente improvisado e atores amadores pertencentes a seus alunos da oficina de interpretação; não custou mais de US $ 40.000; A lenda diz que parte do financiamento do filme foi obtido através de contribuições feitas pelos ouvintes de um programa de rádio. Enquanto foi filmado durante 1957, depois de umas primeiras projeções insatisfatórias, Cassavetes não lançou em sua forma final até 1959, após a re-editar e ajustá-lo em quase metade de sua metragem.



A VERDADE que está nas aparências, o ar de rua, transposição de um sistema ao outro,

https://cinecafe.wordpress.com/2009/08/19/sombras-john-cassavetes-1959/:

Mas o que mais marca é a maneira de ele parecer um “filme de rua”. A câmera (às vezes na mão) passeia por avenidas, plataformas de trens, casas, táxis, preocupado com o que cada um desses lugares tem a mostrar; quer ver rostos de passantes e gente desconhecida, pessoas como aquelas lá de cima; Nova York foi pra tela de cinema em carne e osso. O que acentua esse aspecto também é a técnica de improvisação de Cassavetes, que usava atores não-profissionais.



http://www.cineplayers.com/comentario/sombras/37572:

É interessante notar uma divisão feita direta ou indiretamente em Sombras (Shadows, 1959). Primeiramente parece se tratar de um filme da nouvelle vague, vagabundos intelectuais que correm por aí para fazer bicos e discutir arte, depois se torna um falso melodrama, que embala o desconforto de suas personagens. Sombras, ataca na ingenuidade de todos, músicos falidos intelectuais que ora visitam museus ora estão em uma festinha discutindo Jean-Paul Sartre



http://apaladewalsh.com/2013/03/24/shadows-1959-de-john-cassavetes/:

No fim do filme, uma frase anuncia the film you have just seen was an improvisation. Pode debater-se a validade desta afirmação, se realmente foi improvisado ou se apenas estudado para parecer assim, se faz sentido falar de improvisação no cinema quando se trata de uma obra fechada, destinada à repetição. A ideia maior será quebrar com o classicismo dominante, marcar a ruptura através de uma nova linguagem, e dotar o filme de um espírito irrequieto, que ao mesmo tempo regista as mudanças numa sociedade americana em convulsão e propõe uma diferente abordagem artística.






LINKS EXTRAS:

http://criticosdecinema.blogspot.com.br/2007/03/sombras-cassavetes-1959_20.html:

http://www.filmespolvo.com.br/site/artigos/plano_sequencia/137

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

trecho de France/tour/detour/deux/enfants (1977, 26 min; Jean-Luc Godard)




FRANÇA/IDA/VOLTA/DUAS/CRIANÇAS, Movimento 1: Escura/Química
Os monstros vão para casa,
o mais rápido possível
Parecem átomos
Atravessando a paisagem
que eles devastaram
O trabalho de uma 
vida 
inteira de turistas
Devastando a paisagem, devastador
Um vasto empreendimento, solitário
Os lobos acendem as luzes laterais

O diamante, um solitário
Tudo isso junto - um solitário
continuam parecendo átomos
Iluminada, uma loucura escura
Um desastre industrial
A infância da idade do aço

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Cineclube Ceicine: O Homem que Caiu na Terra (30/10)

O Homem que Caiu na Terra
Exibição quinta-feira (dia 30/10) no Cineclube Ceicine.
A partir das 19h30 com debate após.
Sala de multimeios do Centro Cultural Ceilândia
Ao lado da estação Ceilândia Norte do Metrô
QNN 13 - área especial (Biblioteca Pública).


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Mostra Competitiva Festival de Brasília: Locação


filmes:
- Nua Por Dentro do Couro (2014, 21min; Lucas Sá)
- Bashar (2014, 18min, Diogo Faggiano)
- B-Flat (2013, 24min; Mariana Yousseff)
- Castillo Y El Armado (2014, 13min; Pedro Harres)
- La Llamada (2014, 19min; Gustavo Vinagre)
- Brasil S/A (2014, 72min; Marcelo Pedroso)



.internas

Na apresentação dos filmes no quarto dia da mostra competitiva do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o diretor do curta-metragem Nua Por Dentro do Couro (2014, Lucas Sá) proferiu uma das frases mais ousadas do festival. Ele disse que seu filme, parte filmado no Rio Grande do Sul e parte no Maranhão, era todo passado no Maranhão. Essa generosa informação contém uma dose de audácia por seu grau de revelação, ela fala da construção desse território da ficção (ou seria, melhor dizer da representação?), desse espaço construído por discurso onde a realidade é tornada código (imago).
No entanto, essa revelação não era tão importante para falar especificamente do filme maranhense(?!). Nua Por Dentro do Couro fez parte do grupo de curtas-metragens do festival que, guardemos o jogo de palavras, exploraram o enclausuramento - os outros seriam Loja de Répteis (2014, Pedro Severien), Vento Virado (2013, Leonardo Catapreta) e Estátua (2014, Gabriela Amaral Almeida). São filmes que poderiam se fazer passar por e, em qualquer lugar do mundo. Adeptos de uma estética do confinamento (que verdade seja dita, contempla toda experiência do ver em quadro, limitado), bastaria que alguma personagem olhasse pela janela do apartamento ou residência e, no plano seguinte, uma imagem da Torre Eiffel para crermos (é necessário a nossa boa fé de público) que o filme se passa em Paris.
Porém, e foi por isso a ousadia e generosidade, essa capacidade de revelar esses falsos detalhes antecipados, não necessariamente modernos por não estarem precisamente no filme, permite-nos avançar sobre esses regimes de imagens. Podemos lembrar do caso das novelas da Rede Globo que têm a parte inicial da trama gravadas no exterior ou em que a história é toda passada no nordeste brasileiro. Imagens externas de ruas de cidades famosas, com atores percorrendo prédios e monumentos de reconhecimento ou misturando-se com as populações locais são confundidas com imagens de interiores gravadas nos estúdios Projac na Floresta da Tijuca no Rio de Janeiro (que conta com uma área total de 1,6 milhão de m² e inclui a floresta atlântica ao redor da área utilizada) e a representação estará naturalizada: naturalismo tardio de estúdio que encontra bases mais profundas. Eis uma artimanha.
O modelo hollywoodiano clássico (até os anos 1960, mas no qual se assenta até hoje) é basicamente baseado nessa estratégia que os cinemas modernos irão solapar. Para os técnicos desse cinema industrial de larga escala, era necessário desenvolver os meios que possibilitariam John Wayne, Marilyn Monroe, Clark Gable e Greta Garbo tomarem navios, cruzarem as pradarias a cavalo, atravessar os Estados Unidos de costa a costa ou percorrerem o mundo, sem precisarem sair de dentro dos galpões da Warner Bros ou da FOX onde os filmes eram produzidos a toque de caixa.
Dos diversos rompimentos exercidos pelos cinemas modernos do homem (e cada vez mais mulheres e diversos grupos sociais) com a câmera na mão, um dos principais será a capacidade de subverter essa fórmula. Por exemplo, a capacidade de tomar (no sentido das tomadas de filmagens) da realidade prédios na periferia de Paris e dizer que eles são, na verdade, de um planeta distante chamado Alphaville. Ao modelo da velha Hollywood (até 1960) com atores brincando de guerra em galpões cheios de mato vivendo uma batalha nas Coréias, o contra-ataque da nova Hollywood (após 1970) será inflacionada pelo star system com Marlon Brando e grande elenco excursionando pelos pântanos de verdade (ai como dói) nas Filipinas (e ainda não é exatameeeente o Vietnã). Enquanto a outra ofensiva será nos efeitos especiais e o desenvolvimento de tecnologias de geração de imagens digitais criando novos e virtuais campos de batalhas para conquista.

Nua Por Dentro do Couro (2014, Lucas Sá)


Eu citei neste primeiro bloco do texto os títulos de alguns curtas-metragens vistos na recém encerrada 47ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro que exploraram o enclausuramento enquanto estratégia de construção da narrativa e do espaço fílmico. Poderíamos falar de um cinema de tablado ou de filmes cúbicos. A estratégia é sempre a da suposta quarta parede de onde vemos os acontecimentos desenrolarem-se diante nossos olhos (o famoso ponto de vista). É um cinema herdeiro do palco teatral no que o Teatro tem (e o que o caracteriza como tal) de cálculo da disponibilidade da cena (um local de ação, o percurso do tempo, seres em relação). O cinema assim entendido, conta ainda a seu favor com a mobilidade da câmera e é a elaboração de uma geometria do olhar que irá estabelecer com o público: daqui, você verá isto, daqui, mais isto, e agora daqui, você não verá nada. Esses filmes baseiam-se num pacto com o espectador: o de que existe algo, qualquer objeto a’ que continuará sendo extensão do filme através dos olhos vendados ou por trás das janelas e portas fechadas. Um suposto mais ver que nunca barraria nossa pulsão escópica. Eterna reposição da promessa “vocês querem ver, então eu vou mostrar” que é senão a capacidade de retardar o momento em que o monstro aparece e três letrinhas vêm impedir uma imagem posterior: FIM. Luzes acesas e aquele retorno cruel à realidade.
Esse deambulo já foi longe demais. Todo caso, essas experiências vislumbradas irão descambar no segundo caso que nos interessa analisar aqui. Voltemos aos filmes do Fest Brasília.

.externas

O que temos então quando os filmes saem desses interiores controláveis e arriscam-se a céu aberto? Subtração da quarta parede e acréscimo da “impressão de realidade” que o drama sério burguês tanto se empenhou na sua busca ilusionista? Falamos demais em dispositivos nos últimos anos para cair numa armadilha proposta assim tão fácil. Passamos agora ao segundo grupo de filmes que, sem superar ou dar por ultrapassado as questões apresentadas acima, irão incorporá-las e elaborar a inversão da fórmula: exatamente pelo crivo e pela peneira do dispositivo, estas são obras que enclausuraram a exploração.
Quatro dos doze curtas-metragens exibidos na seletiva nacional eram gratas surpresas que poderíamos denominar filmes forasteiros num festival do cinema brasileiro. O primeiro deles, o desenho animado Castillo y el Armado (2014, Pedro Harres) tem como base da aventura, uma história de fome numa comunidade bem pobre de pescadores argentinos. Bashar (Diogo Faggiano) tem necessidade obrigatória de circulação por ser uma versão particular boa parte captada in loco da emergência (no sentindo do levante) e urgência das imagens da guerra Síria. Já La Llamada (Gustavo Vinagre) tem o dado curioso da ontologia sonora em que vive a ilha cubana. Uma das tramas que se desenrolam é a espera pela ligação da central telefônica que confirmará o funcionamento da linha. A simulação no jogo do ‘telefone sem fio’ da aguardada “chamada” do título, acrescentará doses de melodrama as palavras trocadas entre vistas. Contudo, apesar de filmado no exterior, La Llamada poderia sumariamente ser encaixado no primeiro grupo de filmes do confinamento, pois é necessário que os protagonistas permaneçam em território doméstico aguardando por ruídos familiares. E o quarto curta-metragem da lista, B-Flat (Mariana Yousseff), foi de longe a maior produção vista entre todos os títulos concorrentes no último festival, seguindo o critério dos créditos finais, com as devidas proporções de uma bela orquestração cinematográfica. O curioso é que são todos filmes de títulos estrangeiros, com falas exóticas incompreensíveis sem o auxílio de legendas, mas que elaboram uma insuspeita (secreta, pelo risco de não ser ouvida) composição do prazer da língua. B-Flat é também o maior exemplo, neste caso, por comparar com a melodiosa língua híndi diálogos entrecortados pelo monocórdio inglês. Os quatro curtas-metragens falados em línguas estrangeiras (Bashar, B-Flat, Castillo y el Armado e La Llamada) despertam a primeira possibilidade de aproximação para percebermos esse detalhe que chega antes de nós, não vemos, mas basta abrirmos a boca para instaurar a diferença – é em relação à palavra em oposição às experiências de profundidade desejada da imagem, que os melhores filmes vistos no último Fest Brasília recorreram para demarcar o espaço da diferença ou do pertencimento. Pois é o não ouvir, mais do que o não ver, que implica a falta de percepção do outro, conseqüentemente, anulação de toda política. São curtas-metragens filmados no estrangeiro (o desenho animado passado numa comunidade barqueira argentina, as notícias da guerra síria, o quase melodrama cubano e a fábula indiana) que explicitam mais forte, pelo tema da viagem, como filmes podem ser zonas de contatos entre um cá e um lá. O que fazer? Inscrevê-los.

Brasil S.A. (2014, Marcelo Pedroso)


Tratam-se também de estratégias de tomada (no sentido cinematográfico, mas também militar) da palavra. Vamos nos repetir aqui com assuntos e exemplos retirados de filmes citados anteriormente e como alguns elos podem ser estabelecidos. 3 pontos: 1 – ponto de honra: quem fala por quem; Falei sobre a ontologia sonora da ilha cubana para anotar que em La Llamada, vozes vindas de longe são apenas as emitidas pelas rádios e gravações do governo. Em Cuba, as versões possíveis ainda são na maior parte do tempo apenas as oficiais e chanceladas, como as impressas nos jornais, por exemplo. La Llamada é também um filme institucional sobre as sacolarias e verdurões cubanos. O filme é assinado por Gustavo Vinagre, estudante brasileiro do ICAIC (Instituto Cubano Del Arte y La Indústria Cinematográficos). 2 – falar pelo outro; já a história de retorno às origens de B-Flat inventou a lenda hindu que aparece no curta-metragem sobre tubas que quando tocam a nota Si Bemol (B-Flat em inglês) encantam jacarés que tentam reproduzir o som e fabricam sonhos. Importante ressaltar que, embora o roteiro tenha ousado criar mais um encanto para a já rica mística hindu, realmente existem mistérios envoltos ao soar desta nota musical. 3 – não falar pelo outro; Houve uma interessante tensão entre as diversas propostas narrativas vistas na mostra principal do festival entre filmes falados e filmes mudos. A variação neste caso era apenas a supressão da voz humana, com os ruídos ambientes e trilhas sonoras preservadas. Podemos perceber com mais distância que o mutismo e atuação um pouco atônita dos personagens (agentes, atuantes) de Brasil S.A. (2014, Marcelo Pedroso), seria por esses atores habitarem um espaço (cinematográfico e alegórico) que antecede a linguagem. Situação que concede ao enunciado(r) do filme uma posição de “não lugar”, porque se existe uma oposição entre os habitantes dos planos de Brasil S.A. – algo que os tornem irreconciliáveis - não é perceptível onde cruza essa linha de divisão. Não há qualquer voz vinda de cima ou qualquer pendor que venha auxiliar-nos a estabelecer um alto e um baixo. Pelo que lembro, os únicos pronunciamentos humanos no filme são sempre reproduções mecânicas previamente gravadas, radiodifusões ou mensagens fonadas. A palavra escrita surgia apenas estampada como marca (HYUNDAI).
Esse “não lugar” no filme é a possibilidade de situar-se nessa posição onde podemos olhar para os dois lados ou para os diversos lados contando o filme não insinuar um binômio. Estamos certamente numa fronteira, um ponto de vista entre dois, mesmo sendo território local ou ambiente familiar. Essa oposição é provocada por montagem: trata-se de diversas posições (de câmera, obviamente), mesmo que ligadas ou (re)unidas um pouco à revelia (como a sombra da bandeira no alto do prédio da cidade que faz sombra sobre o homem remando no mangue).
Também a essa precedência naif de “quem ainda não aprendeu a falar”, Brasil S.A. não opõe e nem é uma ode maravilhada ao barulho eufórico do bom funcionamento das máquinas. O som do filme é sempre de uma sinfonia desumana, a atroz ficção das máquinas, sempre prontas para amputar, sedutoras porém extremamente difíceis de causar qualquer identificação. Dois usufrutos: de um lado, ainda acanhado e um pouco canhestro, é preciso acoplar-se à máquina, pois se trata do surgimento de uma nova natureza, originada do fogo, e será necessário aprender a utilizá-la como armadura (hardware) ou apenas formar par, porque a questão seja apenas coreografia; do outro, mais desembaraçado, a plena realização do deslizar de superfícies umas sobre as outras, com as crianças sentadas a salvos nas cadeirinhas no banco de trás, desejo de mobilidade irrefreável alcançando novos patamares e servindo a contento, até que um buraco na estrada venha desalinhar todos os sonhos de retas. O Sol irá preencher o (novo?) centro da bandeira verde amarela e virá tostar, carbonizar, esturricar, ocupando o lugar da ideologia positivista de Ordem e Progresso. O Sol é apresentado no filme como um super poder dotado de justiça própria, o astro maior de nosso sistema vem ocupar seu lugar de direito como ser orgânico que reina sobre a engenharia, destituindo as 27 estrelas dos estados e distrito e dissipando as fronteiras (as linhas imaginárias) entre eles, nessa nova pátria solar que o filme parece inaugurar.
Falta comentarmos sobre a grandiloquência épica, o futurismo e o construtivismo do filme. Montagem por atração, mas principalmente montagem por choque. Há limites claros na demarcação da empreita: vindos da China, aportamos em Brasil S.A. (o filme, mas também o espaço territorial do país cinematográfico LTDA. construído dentro do filme) acompanhando um carregamento de veículos tratores que substituirão os longos vínculos do trabalho humano no corte da cana – ainda, engenhos – a cana-de-açúcar agora é matéria-prima para locomotores, através da produção do etanol. Este seria o extremo oeste do filme. Os manguezais são a porta de acesso à leste e extensão natural em contato com esse universo canavieiro agreste. Os manguezais também são limítrofes (posto de passagem na fronteira)  com a metrópole – a selva de concreto que avança voraz, movimento de aglutinação, mas também de deglutição, ensurdecedora e sem qualquer possibilidade de identificação em meio a tanto barulho. O elemento vivo nesse universo de concreto é o carro – o único movente em habitat natural - num mundo sem cromoterapia. O outro ponto cardeal desse país dos automóveis é a pérola negra, o petróleo. Há ainda sequências muito intensas, até mesmo atrevidas, por afundarmos nas nossas contradições; como exemplos, as cenas com atores negros passando pó de arroz no rosto e valsando um baile à Viena (porque qualquer restrição quanto uma perca da originalidade ou dos costumes tradicionais desperdiçaria as potencialidades e projeções do poder de poder passar pelo outro – um outro de classe, sexual, racial, religioso, cultural). Ou a parte musical no filme quando toca o hit The Sound of Silence durante um culto religioso (por que a questão que sempre retorna é: quem detém a Palavra? Quem pode/deve falar por Quem?). 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Cineclube Ceicine: Mostra Mistérios da Ilha


Cineclube Ceicine: Encerramento mostra Sessão da Tarde à noite


Ontem fechamos a mostra "Sessão da Tarde à noite, dos filmes de muita ação!" com o filme Blade Runner, de Ridley Scott. O clássico de 1982, adaptado da obra de Philip K. Dick, revista ontem, suscitou o levantamento de várias questões como a vertiginosa relação falso e verdadeiro na narrativa humanos vs. androides. Os humanos apáticos e os androides com vontade de viver. - Vi coisas que vocês, humanos, nunca vão imaginar!. Aos privilegiados a verdade, aos comuns as simulações. -Quem vive, afinal?

domingo, 21 de setembro de 2014

Mostra Competitiva Festival de Brasília: Dia 02

Brasil S.A. (2014, 72min; Marcelo Pedroso)


Poderíamos delirar quanto à cena das origens e imaginar que foi necessário ao homem primitivo domar o ritmo para confeccionar artefatos e produzir instrumentos; que enquanto ainda produzia sons descompassados e disformes, era impossível, por exemplo, afinar a ponta de uma lança. Pela percussão rítmica e pelo jogo do marcado e do não marcado a humanidade avançou rumo ao mundo oculto da linguagem, da matemática (1, 2, 3... 1, 2, 3...), da técnica e do mito, “aquilo que, escondido na realidade, só pode vir à consciência humana através de um código, que simultaneamente serve para cifrar esta realidade e para decifrá-la” ("A Escuta", Roland Barthes).
Brasil S.A. (2014, Marcelo Pedroso), 2º concorrente do Festival de Brasília 2014, começa com uma imagem do mar, viagem com destino a terra brasilis. Logo aportamos e a associação da montagem revela que estávamos a bordo de um navio chinês. Neo-colonização. Tratores, empilhadeiras e colheitadeiras desembarcam no porto e desconfiamos por um instante descarregarem artigos xinglings diversos, para logo descobrirmos numa espécie de gag visual - como na piada da senhorinha que carrega sacos de areia numa mobilete na fronteira Brasil-Paraguai - que essas máquinas e equipamentos são já os produtos.
Um homem rema num manguezal, ecossistema costeiro de passagem entre os ambientes terrestre e marinho, rico em nutrientes por possuir grande quantidade de matéria orgânica em decomposição. Em trânsito. Uma bandeira verde e amarela na cidade com um círculo subtraído no meio faz sombra neste homem remando no manguezal. Ele continua sua viagem mangue adentro até uma linha de concreto em leve ângulo recortar a parte superior da tela. Invasão do som atroz de britadeiras. Noutro ponto, homens na sua hora de descanso do trabalho num canavial escutam um forró num rádio a pilha. A melodia do radinho é substituída pelo ritmo mecânico da chegada escoltada dos equipamentos agrícolas que havíamos visto no início do filme. Barulho histérico do funcionamento das máquinas.

Equipar: a recorrente abstração dos filmes do diretor pernambucano Marcelo Pedroso tornam sempre arriscados comentários sociais sobre o que vemos – ou o quanto o filme adere ou descola daquilo que apresenta - pois deparamo-nos sempre com a possibilidade de revirarmos não mais que apenas os nossos próprios preconceitos. Brasil S.A. é o inventário de uma sociedade com o quadro (síntese do recorte cinematográfico) cindido. Diversas forças em campo; o filme não necessariamente opõem-nas, mas distribui perguntas secretas e pungentes: que forças são essas? A quem elas servem e representam? E como podemos domá-las e subvertê-las? Da bandeira brasileira foi suprimida o globo azul com as estrelas da Federação e o letreiro de Ordem e Progresso. Sabemos do tom premonitório dos filmes de M.P., e essa bandeira hasteada, balançada pelo vento, nunca ganha os contornos da reta, do retângulo e do losango. Sua fluidez nos parece propor uma fusão (desejada, buscada?) do naive e do moderno, antecipa o movimento de deglutição (apesar da utopia descartada da ordem e progresso) ao qual todos nós estamos submetidos. Forças opostas: aquela que opõe natureza e técnica ou aquela que permite aos brincantes se fantasiarem de senhores, tomarem a casa grande e transformá-la em nave espacial rumo ao espaço? Nova ocupação. A bandeira é tomada: novos controladores. A sombra já não é um ângulo perfeito, mas célula disforme apesar de possuir um núcleo. Os raios solares ocupam o lugar do Globo. Uma nova pátria do sol.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Mostra Competitiva Festival de Brasilia: Dia 01

Sem Pena (2014, 87min; Eugênio Puppo)
Loja de Répteis (2014, 17min; Pedro Severien)
Bashar (2014, 18min; Diogo Faggiano)


Saída: o cinema imita a vida. Durante algum tempo tive a clara impressão que o que tornava-nos especial, enquanto distintivo de espécie – quando digo nós, digo bichos humanos -  na cadeia evolutiva teria sido não particularmente a capacidade de desenvolver várias linguagens, como a ciência, o cinema ou o direito. Muito mais especial (claro que isso era um pensamento estúpido) seria o nosso órgão ocular. Logo, a História pareceu-me a história do olho. Claro, que essa era uma psicologia aterrorizada e terrorista. As coisas tornam-se mais complexas quando aceitamos o “ver” apenas como um sentido entre os outros. O sentimento vinha de uma crise com o espetáculo e com a ascensão vertiginosa dos meios de mediação.

Barreira: ver em quadro.  Durante o filme Sem Pena (2014, Eugênio Puppo), primeiro filme da mostra competitiva do Festival de Brasília, somente numa cena crucial já no final, veremos os rostos das pessoas que depõem. Todos os declarantes que compõem o tecido do filme somente terão seus rostos revelados nos créditos finais. Por serem todas as vozes não identificadas, essa pretensa relativização, permite-nos tomar todos declarantes como portadores de discursos de saber, embora permaneça (por direito) preservado seus lugares de fala, ou na realidade, o lugar de onde essas palavras são arremessadas.  Há méritos nisso, pois nesse processo de auscultação somos colocados no papel de juízes, onde as declarações tornam-se flutuantes, o sentido torna-se suspenso; ouvidas todas as partes, também a Lei torna-se esquizofrênica. O filme toma a forma da morosidade, da letargia por inércia, pela ausência de ação no quadro. A falta de personagens no campo visível, apenas vistas de longe na maior parte do tempo, torna o filme quadrado, aparentado aos processos jurídicos burocrático que representa – isso é um sucesso enquanto pretensão de forma; no meu caso, chamou mais atenção as possibilidades de interação reveladoras, e principalmente, embora piegas, humanizantes que são menosprezadas no decorrer do longa, a mais emblemática, o guarda embalando metodicamente os alimentos enquanto o preso aguarda, enquanto a obstinada narração em OFF barra o som ambiente.

Loja de Répteis (2014, Pedro Severien)


Transformação: o cavalo e o jacaré. Um dos diversos personagens anônimos de Sem Pena, diz que nem um cavalo suportaria viver nas condições de encarceramento em que quase um milhão de pessoas vivem no Brasil, “o único que suporta isso aqui é o ser-humano”. No curta-metragem Loja de Répteis (2014, Pedro Severien), um jacaré vive “livre” dentro duma casa, eu lembrei dele quando o personagem falou do cavalo. O que mais me atraia era imaginar como o réptil nos via. Eu pensava no jacaré, nos azulejos e nas grades. Os grandes répteis de sangue frio são bichos com fama de dormirem de olhos abertos. Que estado de dormência é esse que possibilita ao olhar naturalizar tudo o que lhe é exterior a ponto de eliminar todo mistério e viver apenas no possível, olhar suspenso dos outros sentidos? Anotou André Bazin, “É verdade que outros procedimentos, tais como a transparência, permitem ter no mesmo plano dois elementos, por exemplo o tigre e a star, cuja contiguidade criaria na vida alguns problemas”. É necessário para a satisfação obsessiva do Cinema (nossa, no caso), internalizar a diferença para salvar a representação, crermos que a perna de Maeve Jinkings foi realmente mordiscada pelo assanhado jacaré doméstico e que o amante proprietário da loja de répteis lambeu essas feridas não menos maquiadas. 
Apesar de toda ousadia textual, validade temática, força representativa e veemência na empreitada de Bashar (2014, Diogo Faggiano), a timidez em assumir o filme em primeira pessoa (vemos apenas as pernas do diretor em duas situações caminhando numa esteira no aeroporto e pelas ruas destruídas “da gloriosa cidade de Aleppo”), a ausência do corpo que carrega o filme, a não existência do eu-personagem, pode levar-nos a incidir numa injustiça que seria a completa negação do projeto de Bashar enquanto prova de sobrevivência, do vim (fui), vi (gravei) e venci (voltei a salvos). A tensão nas seqüências permanecem porque aquelas tomadas guardam o cheiro iminente de morte, fetiche a salvo porque sabemos que o diretor não morreu e nos apresentou os bastidores do filme pouco antes da exibição sob os olhos do jacaré de Loja de Répteis. Tomar Bashar como filme anônimo, como feito de imagens passadas de mão em mão, não tiraria todo o risco das filmagens, mas partilharia a coragem do diretor que viajou a Síria para posicionar-se próximo aos rebeldes e oferecer-lhes um palco (um quadro) para mostrarem suas versões dos fatos. O filme mais forte visto até aqui no Festival.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Agenda: 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Começou hoje a edição de número 47 do Festival de Brasília doCinema Brasileiro com algumas novidades e mudanças. A principal delas foi a retomada da indistinção (ao contrário das edições de 2012 e 2013) entre documentários e ficções na mostra competitiva principal que retorna ao formato seis filmes longos e 12 curtas-metragens.  Para além da seleção enxuta e da Mostra Brasília do Troféu Câmara Legislativa do DF (que em 2014 completa 18 anos), o festival expandiu-se em diversas mostras paralelas e montou guarda em outras cidades satélites do Distrito Federal. Serão cinco mostras alternativas nesta edição do Festival, com uma seleção de seis títulos da carreira do documentarista Eduardo Coutinho, vencedor de dois prêmios Candango (1999 com Santo Forte e 2004 com Peões) e morto no início deste ano (11/05/1933 - 02/02/2014), títulos interessantes nas sessões da “Horizonte Brasil”, a elogiável iniciativa de inserir o festival de cinema brasileiro na América Latina com a realização da prospectiva “Continente Compartilhado Co-Produções Latinas” e duas mostras rememorativas dos 50 anos do golpe militar no Brasil: “Reflexos do Golpe” com produções feitas durante a vigência da ditadura e “Luta na Tela” com produções recentes que tem o período e seus resultados como cenário e tema.

Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964, Glauber Rocha)


A sessão de abertura do festival ficará a cargo de Deus e o Diabo na Terra do Sol, o filme foi lançado pouco antes do golpe e completou 50 anos da primeira exibição (17/03/1964) este ano. Para a cerimônia de encerramento dia 23 de setembro (terça-feira), o escolhido foi Cabra Marcado para Morrer (1964/1984), que teve as filmagens interrompidas pela censura militar por reconstituir um caso criminal no interior da Paraíba sobre as lutas campesinas e retomadas 20 anos depois quando o diretor encontra alguns negativos desaparecidos e parte atrás dos principais envolvidos no filme interrompido. Os dois clássicos serão exibidos em versões restauradas.

Cabra Marcado Para Morrer (1964-1984, Eduardo Coutinho)

As exibições, seminários e palestras ocorrerão paralelas e fará os cinéfilos do quadrado federal e entorno terem de optar entre os diversos eventos nos confrontos de horários  Os debates com as equipes dos filmes participantes da competitiva oficial acontecerão espalhados pelo DF. O avanço para outras regiões descentralizadas ganham este ano sessões matutinas (com o Festivalzinho voltado para o público infantil), vespertinas (Luta na Tela) e pela primeira vez a exibição da Mostra Brasília nessas outras localidades possibilitando à população dessas cidades (Ceilândia, Gama, Sobradinho e Taguatinga) e proximidades conhecerem as últimas produções locais; resta-nos aguardar que as mostras alternativas venham para ficar e privilegiem mais e diferentes recortes, períodos e latinidades; e que as mostras e retrospectivas que ocorrem este ano excursionem pelos diversos QG's de exibição, mesmo após o encerramento do festival, para promover maior circulação de títulos da cinematografia nacional nas periferias e estendendo os trabalhos e programação da principal semana do cinema brasileiro na capital federal por mais um tempo.

Elizabeth Teixeira e dois filhos em Cabra Marcado Para Morrer


PROGRAMAÇÃO FILMES:

Mostra competitiva Longa e Curta-metragem.

Sempre às 20h30 no Cine Brasília / Sesc Ceilândia / CG do Gama / Teatro de Sobradinho / Teatro da Praça de Taguatinga

DIAS:

17/09
Mostra competitiva de curta-metragem: Loja de répteis (PE), 2014, de Pedro Severien. Com Fransergio Araujo, Maeve Jinkings, Giordano Castro, Cintia Lima. Ficção, cor, 17 min, 16 anos. Bashar (SP), 2014, de Diogo Faggiano. Com Rami Jarrah Saleh Fekry. Documentário, cor, 18 min, 16 anos.
Mostra competitiva de longa-metragem: Sem pena (SP), 2014, de Eugênio Puppo. Documentário, cor, 87 min, 12 anos.

18/09
Mostra competitiva de curta-metragem: Sem coração (PE), 2014, de Nara Normande e Tião. Com Eduarda Samara, Rafael Nicácio, Ricardo Lavenère, Arthur Guilherme, Athur Cavalcanti, Damião Manoel, Marcos Lopes , Manoel Félix, Raphael Victor, Vinícius Fausto, Eules dos Santos, Maxweld, Eduardo Normande, Maeve Jinkings, Maria Eduarda, Vitória Régia, Sabrina Santos. Ficção, cor, 25 min, 14 anos. Crônicas de uma cidade inventada (DF), 2014, de Luísa Caetano. Documentário, cor, 25 min, 16 anos.
Mostra competitiva de longa-metragem: Brasil S/A (PE), 2014, de Marcelo Pedroso. Com Edmilson Silva, Wilma Gomes, Adeilton Nascimento, Giovanna Simões, Marivalda Maria dos Santos, Maracatu Estrela Brilhante. Ficção, cor, 72 min, livre.

19/09
Mostra competitiva de curta-metragem: Vento virado (MG), 2013, de Leonardo Cata Preta. Com Paulo André, Dellani Lima, Cris Fariah, Erik Krog-Pedersen, Maria Martins. Ficção, cor, 21 min, 10 anos. Geru (SP), 2014, de Fábio Baldo e Tico Dias. Com Zé Dias. Documentário, cor, 23 min, livre.
Mostra competitiva de longa-metragem: Pingo d’água (PB), 2014, de Taciano Valério. Com Everaldo Pontes, Jean Claude Bernardet, Dellani Lima, Duda Lopes, Melissa Gava, Paulo Phillipe, Valter Bahia, Verônica Cavalcanti, Thera Blue. Ficção, p&b, 80 min, 16 anos.

20/09
Mostra competitiva de curta-metragem: Nua por dentro do couro (MA), 2014, de Lucas Sá. Com Gilda Nomacce, Miriã Possani, Lia Gonçalvez de Azevedo, Tais Galindo, Dagma Colomby, Marcela Bueno e Teci Jr. Pereira. Ficção, cor, 21 min, 14 anos. Castillo y el Armado (RS), 2014, de Pedro Harres. Com Ruben Castillo, Pilly Calvin, José Edil, Vinícius Costa, Maurício Gonçalves. Animação, cor, 13 min, 12 anos.
Mostra competitiva de longa-metragem: Branco sai. Preto fica (DF), 2014, de Adirley Queiroz. Com Marquim do Tropa, Shockito, Dilmar Durães, DJ Jamaika e Gleide Firmino. Ficção, cor, 93 min, 12 anos.

21/09
Mostra competitiva de curta-metragem: B-Flat (SP), 2013, de Mariana Youssef. Com Romil Modi, Deepak Dhadwal, Utkarsh Mazumdar. Ficção, cor, 24 min, livre. Luz (RJ), 2014, de Gabriel Medeiros. Documentário, cor, 25 min, livre.
Mostra competitiva de longa-metragem: Ventos de agosto (PE), 2014, de Gabriel Mascaro. Com Geová Manoel dos Santos, Dandara de Morais, Antônio José dos Santos, Maria Salvino dos Santos, Rachel Ellis. Documentário, cor, 77 min, 14 anos.

22/09
Mostra competitiva de curta-metragem: Estátua! (SP), 2014, de Gabriela Amaral Almeida. Com Maeve Jinkings, Cecilia Toledo, Clarissa Kiste. Ficção, cor, 24min, 14 anos. La llamada (SP), 2014, de Gustavo Vinagre. Com Lázaro Escarze e Alexei (Pacolo) Hernández. Documentário, p&b, 19 min, livre.
Mostra competitiva de longa-metragem: Ela volta na quinta (MG), 2014, de André Novais. Com Maria José Novais Oliveira, Norberto Novais Oliveira, André Novais Oliveira, Renato Novais Oliveira, Élida Silpe, Carla Patrícia. Ficção, cor, 118 min, livre.

Mostra Reflexo do Golpe

16h - Cine Brasília - entrada franca

DIAS:
17/09: O Caso dos Irmãos Naves (1967, Luís Sérgio Person)
18/09: Macunaíma (1969, Joaquim Pedro de Andrade)
19/09: O Amuleto de Ogum (1974, Nelson Pereira dos Santos)
20/09: Iracema – Uma Transamazônica (1974, Jorge Bodanzky e Orlando Senna)
21/09: Bye Bye Brasil (1979, Carlos Diegues)
22/09: Eles Não Usam Black-Tie (1981, Leon Hirszman)

Mostra Luta na Tela - entrada franca

16h – Sesc Ceilândia, CG do Gama, Teatro de Sobradinho e Teatro da Praça de Taguatinga.

DIAS
17/09: Quase Dois Irmãos (2004, Lúcia Murat)
18/09: Cabra Cega (2005, Toni Venturi)
19/09: O Ano em que meus pais saíram de Férias (2006, Cao Hamburger)
20/09: Dossiê Jango (2013, Paulo Henrique Fontenelle)
21/09: Ação Entre Amigos (1998, Beto Brant)
22/09: Hoje (2011, Tata Amaral)


Mostra Eduardo Coutinho - entrada franca

18h – Museu Nacional da República, auditório I

DIAS
17/09: Santo Forte (1998)
18/09: As Canções (2011)
19/09: Jogo de Cena (2007)
20/09: Babilônia 2000 (2000)
21/09: O Fim e o Princípio (2005)
22/09: Edifício Máster (2002)


Mostra Horizonte Brasil - entrada franca

19h -  Museu Nacional da República, auditório II

DIAS
17/09: Porto das Caixas (1962, Paulo Cezar Saraceni)
18/09: Juruna, o espírito da Floresta (2009, Armando Lacerda)
19/09: Misérias e Grandezas de São José do Rio Preto (1948, Raul Ramos)
20/09: Tudo por amor ao Cinema (2014, Aurélio Michiles)
21/09: Eduardo Coutinho, 7 de Outubro (2013, Carlos Nader)
22/09: Paixão e Virtude (2014, Ricardo Miranda)


Mostra Continente Compartilhado – Coproduções Latinas - entrada franca

20h – Museu Nacional da República, auditório I

DIAS
17/09: Artigas – La Redota (Uruguai, Brasil – 2011), César Charlone
18/09: Romance Policial (Brasil, Chile – 2012) Jorge Durán
19/09: Supernada (Brasil, México - 2012), Rubens Rewald
20/09: La Playa (França, Brasil, Colômbia - 2012), Juan Andrés Arango
21/09: Histórias que só existem quando Lembradas (Argentina, França, Brasil - 2012), Julia Murat
22/09: Habi, a Estrangeira (Argentina, Brasil – 2013), Maria Florência Alvarez 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Dez notas Sobre o Abismo (2012, 30min; André Brasil): uma história mal dita.

Curtas metragens:
- Filme para Poeta Cego
- Jessy
- Procurando Rita
- Sobre o Abismo


série "Theaters", de Hiroshi Sugimoto


0. A imagem estática de uma sala de cinema vazia, apesar do som ambiente dos murmúrios de um público apreensivo. As luzes diminuem até a sala ficar completamente escura. Uma tela ao fundo do quadro vem ocupar toda a tela (ou o telos?). O fundo da imagem é já uma imagem (mas será que não foi sempre assim?). O filme começa “made by Nam June Paik”: história(s) do cinema. O audiovisual é o real?  Apenas dois sentidos foram reivindicados. Do índice, apenas o ícone e a estereofonia: embora no cinema, a realidade ofereça-se (i)material – o signo entre nós, o significante puro, o puro significado.

Scénario du film 'Passion' (1982), de Jean-Luc Godard 

1. História(s) do Cinema: Jean-Luc Godard tem “deus” no nome. Ele vem à cena de costas, vemos apenas seu vulto, cabelos desgrenhados tal qual um cientista maluco diante uma tela em branco e começa a recitar em tom magistral: ele aponta a tela e diz que estamos “entre o finito e o infinito”, “entre o preto e o branco” e prenuncia “você voltou a tempos longínquos até a Bíblia, você fez coisas proibidas”, “você pode inventar o mar, a página em branco, a praia” e sentencia “você inventou o mar”. O controle do universo.



Jessy (2013, 13min; Paula Lice, Rodrigo Luna e Ronei Jorge)

2. Noutra de suas histórias, Godard nos diz que “o cinema não faz parte da indústria das comunicações, nem da indústria do espetáculo, mas sim da indústria dos cosméticos, da indústria das máscaras... que não é em si senão uma pequena sucursal da indústria da mentira”, ”história(s) da beleza, em suma.”... para dizer em algum outro momento, que isso talvez porque fossem garotos filmando garotas. Em Jessy (2013, 13min; Paula Lice, Rodrigo Luna e Ronei Jorge), a diretora Paula Lice realiza um sonho dos cahiérs de infância de (trans)vestir-se de diva – história(s) da dublagem, também, de se fazer passar pelo que não é. Vemos no filme apenas os bastidores dos preparativos da apresentação: os ensaios, a escolha da indumentária e a maquiagem, enquanto outras performers nos entretém. O curta-metragem acaba no momento em que Paula Lice (ou melhor, a já transformada Jéssica Cristopherry) sobe ao palco: uma história da beleza interrompida, o espetáculo nos foi negado. Um dia após a exibição, conversando com amigos, lembramos que no início dos anos 1990, durante nossa infância, Silvio Santos já apresentava shows de drag-queens na televisão aos domingos à noite e que os mais ingênuos de nós, não conseguiam identifica-los como homens vestidos glamourosamente de mulheres. História(s) da inocência.


3. De maneira genérica, uma voz vinda do além afirma que “por essa tela já passou boa parte da história do cinema”, mas que “a cada sessão é como se ela estivesse virgem”, pois “a tela em branco é um imenso abismo feito de esquecimento” e então “é estranho pensar que as imagens vivem ali por um momento e passam sem deixar marcas de sua passagem”. “Ou quem sabe os filmes deixam sim marcas muito pequenas que o filme seguinte recebe e que nós não notamos”, para, por fim, essa voz do além perguntar se “não é isso a história do cinema? Os respingos de uma imagem na outra que a tela vai guardando a ponto de se tornar ela mesma um pedaço da história ou ao menos o pedaço da história de alguém?”.

E eu pergunto: “essa tela”? Todas elas? As filhas menores também? Pedaço da história ou espaço onde os olhos a escrevem?                                                      

Procurando Rita (2012, 07min; Evandro Freitas)

4. A memória é um lócus habitável, um espaço? Seu Adilson (Procurando Rita, 2012) interpela o fora de campo (um lugar que não vemos, apenas supomos) e pergunta de forma enigmática se “esse é o fundo musical?”. Seu Adilson faz a mimese do choro. Seu Adilson talvez já não esteja mais lá, embora permaneça diante nossos olhos. Talvez ele tenha viajado no espaço aos seus tempos de menino, quando aprendeu a ser projecionista e excursionou pelas cidades do interior da Bahia, por onde exerceu a profissão. A passagem para essa viagem veio como uma pedra arremessada do passado numa roupagem moderna, um arquivo em MP3 do “Bolero” de Ravel. Seu Adilson, que olha através de nós, sem nos ver, estabelece o diálogo:

- Você gravou onde?
- A Música?
- Sim.
- Eu baixei da internet.

O que é a memória para um computador (machina)? É o mesmo para a espécie humana? Rito e Arquivo: seu Adilson carrega dentro de si a(s) história(s) do cinema de Cachoeira. Quem se atreveria a negar?

5. Um passeio pelas imagens dos outros, uma história feita com - as - dos outros. Documentarama: havia algo de muito simples na origem aqui ou estamos mais próximos daquelas políticas místico-anarquistas que guardam melhor os segredos enunciando-os do que calando-os?


6. Fantasmagoria: “É uma coisa banal (mais uma) dizer que tudo o que entra no campo de visão da câmera não deixa, no entanto, de pertencer a outros campos. O que vai ser filmado (quase) sempre foi filmado. E quanto às imagens das quais ainda nos alimentamos, devemos concordar que seu referente não é mais precisamente uma ‘realidade’ que experimentamos, mas sim a experiência imaginária que temos por já tê-la visto em outros filmes, o hábito formado pouco a pouco com a sua visão. Em todo plano de um homem andando na rua, eu não conecto a ele minha experiência – rica, no entanto – da caminhada, mas uma série de lembranças, da Aurora, de Murnau, até A Punição, de Jean Rouch. O que é a morte, para a nossa geração cinemaníaca que se joga nas cinematecas, senão o efeito dos corpos tombando por terra no cinema?” Ou um caixão preto, fechado e vazio no centro da sala.    

7. As linhas do asfalto correm verticalmente pela tela e uma voz num carregado sotaque sulista made from USA no diz: “nunca penso aonde vou. Mal me lembro onde estive”, “Lembro de fugir, lembro que eu fugi o teeeeeeempo todo, eu estava sempre fugindo”. Movi(e)mento. Enquanto isso, na cidade, as questões continuam... Entre afirmações e perguntas, elas interrogam “por que as imagens podem nos salvar? Por que acreditamos que elas possam nos salvar?”. Um veredicto surge, pois, “de todo modo, olhar uma imagem é sempre uma prece, um pedido”. Porque “não é essa a vida secreta das imagens? Salvar do lado de lá, algo que do lado de cá está sempre na iminência da catástrofe”. Bazin dizia, “salvar o ser pela aparência”.

Filme para Poeta Cego (2012, 26min; Gustavo Vinagre)


8. Mauro não apareceu, Rafael Burlan e Cris Negão já não estão mais presentes. Como restituí-los? A quem oferecer suas imagens (num sentido sagrado, inclusive)? Apareceram Sanã, Luna, Cinara, Maria, Èdouard Glissant, Alexandre Robatto, Marta Rocha, os burrinhos, a filha, enquanto um Pai ganhou a liberdade e seu Adilson procurou por Rita Hayworth e não encontrou. O diretor Gustavo Vinagre (Filme para Poeta Cego, 2012) foi encontrar Glauco Mattoso para ser obrigado a lamber a bota do poeta cego, entre outras coisas, em cena. O prazer também foi meu: minha vontade também era a de ordenar “bota pra chupar tudo!”, GRITAR, em plena sala de cinema. Não sem antes cegar o oriental com minha espada samurai.

9. Por último, de novo Godard. Ele nos conta mais uma de sua(s) história(s) sobre “uma operária que é despedida por seu patrão. Ela se apaixona por um estrangeiro que veio para fazer um filme na região. Mas a mulher do patrão também se apaixonou pelo estrangeiro. E o estrangeiro não consegue achar uma história, uma estória para seu filme mesmo que haja cinquenta em torno dele. É tudo”.